A história do alisamento através das décadas

26/12/2015 | Patricia Santos

As brasileiras sempre amaram e, mesmo com a retomada da naturalidade dos fios, ainda são loucas pelo alisamento do cabelo. Por conta dessa fixação capilar, nossos profissionais são experts nas técnicas que, felizmente, evoluíram bastante com o passar dos anos. A seguir, a gente te conta detalhes dessa trajetória.

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Usar a expressão “linda e lisa” nem sempre foi uma opção fácil para as brasileiras. Como nosso país tem alto índice de miscigenação – saiba que 70% da população tem cabelo cacheado, segundo pesquisa do Instituto Beleza Natural e da Universidade Nacional de Brasília –, em cada cinco enroladas, duas têm cabelo alisado, revela outro estudo, desta vez da gigante L’Oréal. Ou seja, esse montão de fãs do look flat tem à mão um mercado repleto de técnicas e métodos de alisamentos eficientes, coisa que nossos antepassados não tiveram por um período longo! Curioso para saber como elas se viravam? Neste especial, a Cabelos&cia desvendou a caminhada do liso desde a década de 1930 até hoje. Para isso, entrevistamos só feras no assunto: o engenheiro químico especialista em cosmetologia Humberto Michel, diretor industrial da Bio Genetyc, e Roberto Beraldo, educador da Ondina Beauty Academy e hairstylist no Monalisa Hair and Make Up, localizado em Campinas (SP). Além disso, ainda consultamos a dissertação de mestrado da bióloga Rita de Cassia Oliveira Köhler, mestre em Química da Saúde na Universidade de Federal de Santa Rita. Confira, a seguir, como foi essa evolução!

1930

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É nessa década que a saga do liso começa com tudo. Segundo a bióloga Rita de Cassia, ainda não havia métodos químicos de alisamento. Portanto, o jeito era alinhar os fios de forma mecânica com o chamado cabelisador. “Parente distante da chapinha, era uma haste de metal levada à brasa ou ao fogão.” Depois de quente, o acessório era aplicado no cabelo e pronto, tinha sua textura modificada, mas sem eliminar, de fato, as ondulações, como usava a atriz Greta Garbo. É claro que esse processo tão arcaico causava danos, ainda mais que naquela época não havia protetores de calor.

1940

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Surge o pente quente, usado pela atriz Dorothy Dandridge, e que foi moda até os anos 1980. O processo se assemelhava ao do cabelisador: o instrumento era aquecido no fogo e passado diretamente no fio. A diferença está no formato, que era de um pente, ou seja, um pouco mais eficiente no alisamento do que o anterior.

1950

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Aqui, efetivamente, as substâncias químicas viram protagonista. A primeira delas é a soda cáustica, ou seja, o hidróxido de sódio. “Ele era bastante utilizado para alisar cabelos afros”, afirma Roberto. O ativo, aplicado até hoje, foi criado, de fato, em 1914, pela empresa Relaxer. Entretanto, é só nessa década que passa a ser usado pelas mulheres com madeixas mais crespas e volumosas, como a cantora norte-americana Bette McLarin.

1960

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Nessa década, as musas do cinema usavam looks volumosos e alinhados, como é o caso das integrantes da banda The Supremes, como Diana Ross. Naquela época, o trio de vocalistas usava peruca para imitar o visual de Jacqueline Kennedy, com seus penteados altos. “A dica para ficar igual ao visual da primeira-dama era fazer touca noturna com grampos”, conta Roberto. 

1970

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Na era hippie, ícones como Janes Joplin colocaram os cabelos despenteados e totalmente naturais na moda. As meninas do The Supremes assumiram a cabeleira. Era o tempo do black power, de Jackson 5, em que a espontaneidade e o orgulho do cabelo dominava o cenário. Correndo na contramão, a empresa Relaxer lança o Lye Relaxer, alisamento com hidróxido de potássio. Entretanto, o ativo era muito agressivo e danificava demais as madeixas, causando até alopecia.

1980

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No início da década, surgiu o tioglicolato de amônio usado com bigoudis. Era o permanente, com objetivo de encaracolar as lisas, já que a onda era ter volume, como a musa Madonna. Todavia, no final da década, começaram a aparecer algumas técnicas de alisamento. “O processo químico para alisar ou cachear o cabelo era o mesmo. A diferença é que ele era esticado durante a mudança”, conta Humberto. O engenheiro químico também se lembra de outros procedimentos. “A touca de gesso era uma mistura de farinha de trigo com tioglicolato de amônio e também os henês”, complementa. Nesse período, nasce o nome “relaxamento”, que vem do Relaxer. Entretanto, o produto continha fórmulas menos agressivas e maior poder de alisamento e reparação.

1990

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Nos últimos anos do século 20, a febre era a cabeleira lisa e chapada. Além da popularização da prancha, nasceu a onda criada pelo cabeleireiro Satoru Nagata, que aprimorou uma técnica turca e batizou de alisamento japonês (que também é chamado de escova definitiva)! À base de tioglicolato de amônio, o processo danificava bastante os fios e tinha um resultado artificial. “Era muita agressão, pois, além de passar o produto, era preciso enxaguar e chapar muitas vezes, sensibilizando e quebrando as madeixas, principalmente no retoque de raiz.” No Brasil, a atriz Malu Mader e a então âncora do Jornal Nacional, Fátima Bernardes, aderiram à moda.

2000

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Roubando a cena da técnica definitiva, a escova progressiva à base de formol despontou no subúrbio do Rio de Janeiro e se espalhou por todo o País. A iniciativa dos cabeleireiros proporcionava cabelos lisos e brilhantes por três meses. Entretanto, como o ativo causava diversos danos à saúde, inclusive casos de morte, a Anvisa inicia a guerra contra a substância e proíbe seu uso para alisamentos, permitindo apenas 0,2% na fórmula dos produtos – quantidade suficiente para conservá-los.

2010

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Com a proibição do formol, o mercado investe em fórmulas alisantes livres dele. É o caso do alisamento light, dos redutores de volume, realinhamento térmico e escovas definitivas. Entretanto, a Anvisa está sempre atenta. Após surgir como um dos substitutos do formol, o ácido glioxílico foi proibido em 2014. O motivo? Ao esquentá-lo com a prancha, ele libera formaldeído! Os cabeleireiros precisam ficar atentos para usar ativos registrados e aprovados pela Anvisa. Hoje, as substâncias permitidas são: tioglicolato de amônio, carbonato de guanidina, hidróxido de guanidina, de sódio, potássio, lítio e cálcio.

 

Texto: Geiza Martins (edição de web: Patricia Santos)
Fotos: Divulgação, Reprodução, Getty Images e Shutterstock