Mulher de fibra: conheça a trajetória de Bete Omori

Bete Omori chega aos 40 anos de profissão colhendo os bons frutos que não cansa de plantar. Presidente da Haute Coiffure Française do Brasil e diretora de eventos do Sindibeleza, a hairstyçist busca a união dos profissionais e quer resgatar os tempos áureos dos concursos

23/10/2017 | Geiza Martins

O sorriso, definitivamente, é sua marca registrada, os cabelos vermelhos também. “Dou risada sempre, mesmo quando a coisa está ruim”, faz questão de afirmar ao longo da entrevista. E é assim que Bete Omori recebe a CABELOS&CIA em seu salão Beta Haute Coiffure, na Vila Nova Conceição, em São Paulo. Nascida no interior do Estado, fincou raízes na capital há 35 anos em busca de novidades e não parou de procurar.

Hoje, Bete Omori é presidente da Haute Coiffure Française do Brasil (HCF) e dedica 24 horas do dia ao trabalho. “Tenho esse jeito de doidinha, mas ser cabeleireira é o que há de mais sério para mim.” Apesar de adorar uma competição (Bete Omori é apaixonada por campeonatos e troféus), afirma que o melhor caminho para o sucesso é aprender a amar seu vizinho de profissão. É assim que conduz uma das entidades mais conceituadas do mundo e que busca criar uma base forte de educação.

Você tem um perfil business, vive em eventos badalados. Por que escolheu seguir essa linha?

Sou uma profissional mais assanhada [risos]. Não consigo ficar parada de jeito algum. Sou muito proativa. Para você ter uma ideia, entrei na escola com menos de 5 anos. Estar no meio dos melhores, do que está acontecendo, traz boas oportunidades. Além de presidir a HCF, sou diretora de evento do Sindibeleza, onde promovo um jantar no final do ano reunindo cerca de 700 profissionais. Sinto-me lisonjeada por ficar entre as pessoas que acontecem e perante a mídia. É bom demais [risos].

 

Sua mãe é cabeleireira. Como foi seguir os passos dela?

Quando adolescente, eu não queria, não! Jurava que não ia ser. A história com a beleza na minha família se deu depois que meu pai nos deixou e minha mãe nos sustentou com a profissão. Comecei aos 8 anos, mas não gostava, não me via assim no futuro. Eu a ajudei até os 11 anos. Com 12, fui trabalhar em uma perfumaria dentro do maior salão de Fernandópolis [SP] na época. Em três meses, eu que sempre fui atirada, me dei muito bem. Um dia, o Fininho, então presidente da Febraca [Federação Brasileira de Cabeleireiros], visitou o lugar e gostou de me ver tão dedicada. E olha que eu ficava só na loja! A dona contou que eu segurava um grampo como ninguém. Recebi dele o maior apoio. Também fui incentivada pela diretora da minha escola, que me aconselhou a seguir os passos da minha mãe. Um ano depois, eu era cabeleireira.

 

Por que acredita que sua carreira deu tão certo?

Porque busco continuamente aprender, ver as novidades… O profissional precisa disso, o cliente também. Viajo para o exterior ao menos uma vez por ano para ver as coisas que estão acontecendo e ter forças para voltar. Sua inspiração vem das viagens?

Sim, e também das pessoas, das lojas, das ruas, de tudo ao meu redor. Um dos cursos que fiz em Paris recomendava justamente isso: observar o que está acontecendo. A mulher tem seus costumes, não adianta você lançar algo e não ser absorvido no universo dela. A busca está na moda, na cor do móvel, no figurino. Costumo dizer que respiro cabelo. Não consigo ter uma vida muito além da profissional. Se vou aos Estados Unidos passear, faço três dias de turismo e outros três de workshop. Nunca tive uma viagem de férias sem um aprimoramento para a carreira.

 

Conte seu percurso até se tornar uma profissional com esse olhar…

Nasci em um sítio, na cidade de Santa Rita [SP]. Mudei para São José do Rio Preto e abri meu primeiro negócio. Mas eu queria era vir para São Paulo, como toda pessoa do interior. Quando cheguei aqui, há 35 anos, conheci um dos salões mais badalados na época, que ficava em Santana. Depois, trabalhei quase dez anos na Aclimação, no Cecília Cabeleireiros. Sabe aquele tipo de lugar em que você entra e se dá muito bem? Foi assim. Ali dei aulas, viajei o Brasil inteiro, só que era pequeno. Mas ter um salário não era o suficiente para mim. Então, pobre, quando quer algo, precisa trabalhar. Lutei muito e inaugurei o Beta Haute Coiffure há 24 anos. Tive sorte de estar no meio das pessoas certas no momento ideal. Aconselho todo mundo a não esperar. Se tem um evento, vá, mesmo que seja sozinha, como cansei de fazer. Porque ali você conhece alguém, se inspira e por aí segue. Senão, fica um passo atrás – e sempre busquei estar um à frente.

 

Em 40 anos de experiência, o que você viu mudar no mundo da beleza?

A moda é muito flexível, tudo vai e vem. Atualmente, consumimos muita coisa de 40 anos atrás. Reciclado, lógico, com cores de hoje, por assim dizer. Se tem algo considerado novo, pode apostar que a técnica é uma inovação, com criatividade, inspirada no passado. É uma constante. Em um momento, aqui é extremamente exagerado e você acha que ninguém nunca vai querer. Mas passa algum tempo e está todo mundo usando.

 

Bete Omori, como você se sente convivendo com os jovens, essa geração millennials?

Outro dia brinquei que me sinto um dinossauro perto dessa molecada. Mas tenho 54 anos e estou aí, né? Ainda sou lenta, os dedos não acompanham muito, mas o intelecto vai. Agora, essa juventude cresce na velocidade da internet, absorvendo as coisas com uma facilidade tremenda. Porém, eles estão carentes de metodologias. Se a gente não pensar na educação, vamos chegar num ponto avançado demais em termos de mente e ao mesmo tempo atrasado no quesito técnica e corpo. É um paradoxo e algo que está sendo esquecido. Foi exatamente por isso que abracei a HCF. Além da união entre profissionais, quero incentivar o conhecimento, o que há de mais belo.

A internet é amiga ou inimiga?

Às vezes até assusta por ser tão rápida. Mas é uma parceira para os proativos. Hoje a cliente está muito ali, tête-à-tête com o profissional. Então, se você não acompanha, fica para trás.

 

E as blogueiras e youtubers?

Vejo muita resistência [a elas] por aí. Não sei se é medo, receio… Não sou contra, acho lindo o que fazem, afinal, elas estudam muito para aprender aquilo. Mas a técnica, quem tem? Somos nós, os profissionais. Temos de nos unir e não querer destruí-las. Precisamos aliar educação com a velocidade da internet.

 

Seu currículo é vasto em competições…

Sempre gostei muito. Fui campeã pan-americana, ganhei alguns nacionais, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, já recebi mais de 500 troféus na vida. Houve uma época em que todos os finais de semana eu competia em algum lugar. Cheguei a fazer um curso para jurada na Argentina e assim entrar nos bastidores. Hoje existem poucos concursos aqui no Brasil, ficou adormecido, e tenho saudade daquele glamour. Mas na América Latina ainda existem.

 

O que significa competir para a Bete Omori?

Desde que seja sadio, é lindo. Nos obriga a buscar conhecimento, aprender e treinar. Quando alguém me desafia e eu sinto o perigo, vou atrás. É inaceitável eu não saber.

 

Para uma grande competidora, como é perder?

É péssimo, dolorido. Na minha vida, tenho três acontecimentos marcantes. Um deles é a perda do meu pai. Nós éramos muito bem de vida e ele saiu para viajar e nunca mais voltou. Após 15 anos, soube que estava vivo e tinha formado outra família. Acho que foi por isso que nunca quis ter filhos, por medo de não ter a capacidade de me manter ali para a criança. Então bloqueei esse meu lado feminino. A segunda foi quando vivia o auge da minha carreira em São José do Rio Preto. Comprei uma casa, um estabelecimento, e estava bem. Daí começou um assalto aqui e outro ali, de mão armada e tudo. Foram nove no total e bem traumatizantes. A terceira perda foi depois que me casei e também foi financeira. Tivemos um desfalque violento e precisei voltar à luta e começar tudo de novo.

 

Ainda há sonhos, novas conquistas que almeja?

Hoje, meu sonho é a Haute Coiffure. A última gestão fez coisas lindas, um trabalho maravilhoso. Agora, estamos eu e Jaime Alves na presidência e queremos ver a instrução formatada de novo. Está faltando esse lado. É como eu disse, tem muita informação e pouco treinamento. O ensino está muito superficial e a técnica, parada. Quero ver a instituição no Brasil tão forte quanto é lá fora. Sei que todos vão ajudar. E temos de resgatar todas as entidades, não a HCF apenas. Precisamos ter de volta o glamour dos campeonatos.

 

Fotos: Gustavo Morita