Barbeiras sim senhor!

Cresce o número de mulheres mandando bem com as navalhas e encantando a clientela das barbearias. Conheça algumas dessas personagens e inspire-se!

19/05/2017 | Redação

Muito além de um simples modismo, barber shops de todos os estilos se estabeleceram como negócio de sucesso no Brasil. De acordo com a professora Andreia Mirón, que recentemente lançou o livro Dândi, sobre a história da beleza masculina, esses tipos de estabelecimentos são resultado de uma libertação que começou lá nos anos 1970. “Da Revolução Industrial até essa década, os homens tiveram sua vaidade reprimida”, afirma a especialista. Para ela, as barbearias representam um local onde eles se permitem um momento único dedicado à estética. E nesses instantes tão íntimos, as mulheres sempre ficaram de fora. Até agora. “Não há registro na história de barbeiras. A não ser na expressão ‘fazer barba e bigode’, metáfora usada pelos franceses para falar sobre as prostitutas, lá no início do século 19.” A barbeira Sindi Devitte diz que há relatos do século 14, época em que os barbeiros faziam pequenas cirurgias e suas esposas os ajudavam. Durante a Segunda Guerra Mundial, elas também foram chamadas para cuidar da higiene e das barbas dos soldados. De volta ao século 21, pouco a pouco, as mulheres passam a ganhar cadeiras próprias nesses redutos antes exclusivos para atuação de barbeiros e agradam muito aos clientes.

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No Circus Hair (SP), por exemplo, há somente barbeiras. “Muitos homens agendam e, quando chegam aqui, acabam se surpreendendo, mas nunca recebemos uma queixa. Muito pelo contrário. Alguns dizem que elas são até mais detalhistas que os profissionais do sexo masculino”, afirma Rodrigo Lima, diretor criativo e proprietário do Circus Hair.

Nós conversamos com algumas dessas moças feras nas navalhas. Inspire-se!

De pai para filha

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“Os circos antigos exibiam as mulheres barbadas, nós temos as mulheres barbeiras”, diz o proprietário do Circus Hair, Rodrigo Lima. No espaço, também há cursos de formação de barbeiros, no qual Naomi Nishida, uma das funcionárias mais antigas da casa, se formou.

Uma das barbeiras exclusivas do Circus Hair (SP), Suelen Machado cresceu vendo o pai fazendo a barba de seus clientes e, quando era criança, até se cortou tentando imitar seus gestos. Em vez de dar bronca, ele passou espuma em bexigas e pediu para Suelen limpar com a navalha, sem estourar. Mas isso não significava que ele aprovava o ingresso da garota em seu mundo. Ao contrário. Na adolescência, proibiu que ela frequentasse sua barbearia, mas foi em vão: a filha adotou a mesma atividade. “Acho o máximo ter a profissão do meu pai, ainda mais por ela estar cada dia mais valorizada”, afirma Suelen. “Na época dele, era uma maneira de pessoas sem estudo ganharem dinheiro, mas nunca o vi assim. Ele deixava as pessoas felizes. Era algo mágico”. Em sua trajetória, Suelen fez curso de cabeleireiro e maquiagem, trabalhou cinco anos na rede Jacques Janine do ABC e Juqueí, mas abandonou os salões porque não gostava da competitividade entre as mulheres. “Sempre me identifiquei mais com os homens.” Seu sonho atual é fazer um workshop na famosa VBD Education, escola muito conceituada da área, no México!
Eu sou fera em: “Corte fade usando várias alturas do pente, começando do zero e finalizando com o uso da navalha”.
Minha dica de ouro é: “Amar muito tudo que faz, porque ser barbeira é ir na contramão da sociedade. Ter bons equipamentos e produtos é essencial para se dar bem com a clientela”.

Paixão pela arte

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“Assim que entrei em contato com esse mundo, fiquei encantada”, revela Caroline Festa, de Florianópolis/SC.

Caroline Festa, de Florianópolis, filha de dona de salão, segue os passos da mãe desde os 14 anos, mas não gostava do ambiente tradicional. Aos 20 anos, a curitibana se encontrou entre navalhas e toalhas quentes após fazer um curso. “O clima das barbearias é muito mais divertido e descontraído. O cliente vem aqui para conversar, escutar um bom rock e tomar umas cervejas”, diz. Ela conta que sua relação com a profissão foi amor à primeira vista. “Assim que entrei em contato com esse mundo, fiquei encantada”, afirma. Sobre o preconceito, ela comenta que “não é mais tão escrachado como era antes”. Aliás, ela não é mais a única barbeira do lugar em que trabalha, a Barbearia Tradicional. A jovem também não se intimida diante das piadinhas tipicamente masculinas: “Dou risada junto”, afirma.
Eu sou fera em: “Misturar cortes tradicionais com uma pegada old school. Por exemplo, faço o haircut em pente corrido, na tesoura, e dou um toque do tradicional acabamento europeu finalizando em degradê”.
Minha dica de ouro é: “Aprimorar sua técnica para se destacar na área”.

Troca de conhecimento

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Giliane Coviack, a Madame Coviack, que atende em sua barbearia, no centro do Rio de Janeiro, desde 1999

Giliane Coviack, 34, carioca, é apaixonada por cortar cabelos. “Desde que sejam de homens”, brinca a barbeira, que já aparou a cabeleira dos jogadores da Seleção Brasileira e, hoje, é jurada do programa The Best Barber Brasil. Conhecida por Madame Coviack, ela atende em sua barbearia, no centro do Rio de Janeiro, desde 1999. e também roda o País dando cursos. A maioria dos alunos ainda é masculina. “Nos workshops, sempre há de duas a três mulheres em uma turma de 50 a 130 barbeiros”, diz. Para Giliane, essa discrepância se deve ao machismo. “Ainda acham que nós não somos capazes”, afirma a expert.
Eu sou fera em: “Cortes europeus (pompadour e undercut) e retrô, adaptados ao público brasileiro, é claro, e com intervenções químicas, como selagem ou definitiva, dependendo do tipo de cabelo”.
Minha dica de ouro é: “Estude. Você já irá sofrer preconceito apenas por ser mulher, se não se capacitar, dará mais oportunidade de tentarem diminuir seu trabalho”.

Navalha afiada

Nathalia Alvarenga, 20 anos, que gerencia um salão unissex, em Campo Grande/MS

Nathalia Alvarenga, 20 anos, de Campo Grande, trançava o cabelo das amigas quando era criança. Aos 14 anos, começou a cortar e, aos 16, ganhou um curso de cabeleireiro da mãe. “Lá, vi que nenhuma mulher se interessava por barbearia e, como sempre gostei de me diferenciar, fiz aulas”, conta. Ganhou apoio de um professor, que deixou a aluna fazer sua barba: “Ele disse que a minha mão era leve”, conta. Da sala de aula, ela foi trabalhar direto na barbearia Bigode Grosso, onde ficou por quase dois anos. “No começo, eles prendiam a respiração quando eu chegava perto com a navalha. Tinham receio de uma menina, baixinha e de voz fina, mexendo com esse instrumento tão perigoso”, conta rindo. A barbeira agora gerencia um salão unissex.
Eu sou fera em: “Trabalhar com navalha”.
Minha dica de ouro é: “As mulheres devem se posicionar e mostrar que são tão boas quantos os homens”.

Estilo pin-up

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“Como o ambiente em que trabalho é vintage, uso um estilo retrô e rock and roll”, conta Vivian Doni, 34 anos, de Campinas/SP

Vivian Doni, 34 anos, de Campinas (SP), seguiu o conselho de um amigo, dono de barbearia. “Ele me disse que seria inovador ter uma mulher barbeira”, afirma. Formada como cabeleireira, ela aproveitou o negócio do amigo para aprender na prática. Isso porque ainda não havia cursos específicos em Campinas na época. Há dois anos, Vivian, a oitava profissional da barbearia Cartola, é a que tem mais clientes. Ela atribui o sucesso ao detalhismo e à mão leve, típicos das mulheres. Nem tudo foi fácil e a barbeira enfrentou, sorrindo, cara feia e olhares tortos. O estilo rocker/pin-up é uma das marcas da profissional. “Como o ambiente em que trabalho é vintage, uso um estilo retrô e rock and roll”, diz ela, que circula numa boa pelo espaço com sinuca e bar.
Eu sou fera em: “Detalhes! Não deixo o cliente ir embora enquanto a barba não estiver muito bem alinhada, sem nenhum pelinho fora do lugar”.
Minha dica de ouro é: “As cabeleireiras deveriam conhecer mais o mundo masculino”.

Em nome das barbeiras

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“Apesar de 50% dos profissionais serem mulheres, ainda falta representatividade feminina nos conselhos e órgãos da barbearia”, analisa Sindi Devitte, 43 anos.

Sindi Devitte, 43, saiu de Mato Grosso do Sul há 22 anos para estudar em Londres. Lá, se formou cabeleireira (mas nunca atuou em salão) e descobriu sua paixão pela barbearia, aliás, uma atividade super-respeitada na Europa. Hoje ela é um exemplo para todas que seguiram a mesma profissão – muitas, inclusive, se formaram com ela. Sindi é fundadora do Barbers Clan – Barbers United Around The World –, que tem a proposta de valorizar as barber shops e os barbeiros por meio de suporte, engajamento e educação. Ela roda o mundo dando workshops concorridíssimos e, em 2017, tem o projeto de abrir uma academia por aqui. Em 2016, ela participou do Barber Connect, o maior evento da área da Europa. Sindi fez parte das apresentações como a única mulher barbeira sênior da British Barbers Association (Associação Britânica de Barbeiros). Ela foi, também, uma das poucas a se apresentar entre os níveis mais altos da profissão. “Apesar de 50% dos profissionais serem mulheres, ainda falta representatividade feminina nos conselhos e órgãos da barbearia”, afirma a expert.
Eu sou fera em: “Barbearia tradicional, que são cortes inspirados nos clássicos da história ou em filmes, e sigo a escola europeia, que opta por não fazer tratamentos químicos ou colorações”.
Minha dica de ouro é: “Se der medo, continue assim mesmo. O tempo se encarrega de trocar o receio pela certeza absoluta”.

Quer ficar por dentro de absolutamente TUDO que acontece no universo barber? Então você não pode perder a 1ª edição do Barber Week, maior e mais importante evento do segmento, que acontece nos próximos dias 11 e 12 de junho, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. O evento reunirá uma ampla programação educacional, com palestras e workshops ministrados por alguns dos maiores experts no assunto no Brasil e no mundo, além de um espaço de exposição de produtos, tendências e técnicas. Para saber mais, acesse: www.barberweek.com.br.

 

Texto: Heloísa Negrão (edição para web: Patricia Santos)
Fotos: Gustavo Morita e divulgação