Diversidade na beleza: aprenda com as particularidades da clientela

Experts compartilham suas experiências em atender pessoas de três grandes comunidades imigrantes: libanesa, judaica e coreana

01/09/2017 | Redação

O Brasil não é apenas uma nação, mas várias delas reunidas em uma só. Desde a sua colonização, nosso país recebe imigrantes vindos dos quatro cantos do mundo, o que resulta na diversidade da beleza. Aprenda com especialistas um pouco sobre a rotina de beleza e a cultura de três grandes comunidades: libanesa, judaica e coreana.

UMA INSIDER DE VÉU

O Brás é um bairro paulistano famoso pelo comércio de roupas. Nele, vive uma grande comunidade de libaneses, a maioria lojista. Em um apartamento no Pari, vizinho ao Brás, vive Simone Chabin, uma maquiadora muçulmana que atende as mulheres da região, além do grupo de libaneses de São Bernardo do Campo (SP), onde nasceu. “Cerca de 85% das clientes são da minha colônia. Fiquei mais conhecida dentro da nossa cultura mesmo, das nossas amizades”.

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Simone Chabin atende suas clientes em domicílio

As duas regiões em que Simone trabalha refletem um dado surpreendente. Hoje, o número de libaneses no Brasil é maior do que a população do próprio Líbano! São mais de 10 milhões em território brasileiro contra 4,5 milhões que vivem naquele país. Apesar de não haver um levantamento científico para a quantidade de muçulmanos (vale dizer que o Líbano é um país dividido entre o islamismo e o catolicismo), a Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras) estima haver algo entre 800 mil e 1,2 milhão.

Estética árabe

Uma das tradições mais famosas do islamismo é o uso do véu, também conhecido como hijab, que cobre cabelo, pescoço e orelhas. Esse costume religioso afeta diretamente o visual e a beleza, pois destaca o rosto da mulher e os olhos ganham papel de protagonistas na produção.

No make, a tez é bem pesada, carregada mesmo, como se fosse de boneca. De jeito algum podem aparecer imperfeições, até porque nada pode tirar a atenção dos olhos. Saiba que as libanesas são extremamente vaidosas e entendem bem de maquiagem. “No Líbano, elas fazem a pele bem grossa e um olhão chamativo em cinco minutos. É o hábito do dia a dia delas”, comenta a beauty artist, que viaja para lá todo verão. Portanto, se um dia você for atender uma árabe, prepare-se para conversar sobre técnicas para construir a base perfeita, tanto como questões sobre produtos. Um dos cuidados que Simone sempre tem é perguntar sobre a cor do véu. “Algumas gostam de combinar, outras não, daí faço nude ou preto. Depende mesmo da pessoa”.

BONECAS DE PORCELANA

Atualmente, estima-se que 50 mil coreanos e descendentes vivam no Brasil. Por volta de 90% deles moram em São Paulo, mais especificamente no Bom Retiro, considerado o bairro coreano da capital. E é na Rua Guarani, no segundo andar de um prédio antigo, que vive Susana Hey Suk Kim, a preparadora de noivas mais conhecida na colônia. Nascida na Coreia do Sul, Susana entende português, mas precisa da ajuda da filha Priscila para se comunicar.

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Suzana Hey Suk Kim prepara noivas e noivos coreanos

Há 20 anos, ela veio direto de Seul para São Paulo e está há 14 anos na mesma região. Hoje, além de fazer maquiagem, penteado, alugar vestidos e decorar casamentos, sua empresa Wedding Genesis abrirá um salão de beleza no primeiro andar do edifício. “Vamos continuar atendendo nossa comunidade, mas queremos brasileiras também”, diz. Segundo Susana, as coreanas são bastante exigentes. “Elas não usam produtos nacionais, pois têm a pele diferente da das mulheres daqui, e por isso preferem cosméticos específicos, vindos direto da Coreia.”

Visual delicado

Sempre que Susana vai preparar uma noiva, ela investe em um make delicado, com tons de rosa e uma pele impecável. “Elas gostam de maquiagem mais leve e bem básica. A pele tem de ser bem-feita, esconder tudo”, entrega. Na verdade, as coreanas são famosas por seu rosto impecável. Desde muito jovens, elas aprendem a cuidar da cútis, por isso têm um ar jovem e saudável. O penteado da noiva é, geralmente, preso ou semipreso. Quando ela participa de uma cerimônia tradicional, com trajes típicos chamados hanbok (coloridos e em tecidos finos como seda), o cabelo deve estar levantado.

Outro detalhe interessante é que no pacote de casamento de Susana também está inclusa a maquiagem do noivo. Sim, os homens também apostam num make no grande dia. “É bem simples, faço mais pele, corto a sobrancelha e escureço um pouquinho a pálpebra. É mais pensando na fotografia, pois os orientais querem realmente sair bem nas fotos”, revela.

ENTRE PERUCAS E NÁILON

É com uma fala mansa e uma pitada de seriedade que a cabeleireira Antonieta Calçolari Ruzzi, 72 anos, segue conquistando a clientela da colônia judaica paulistana. Geralmente, sua freguesia segue de Higienópolis, bairro nobre da capital, até a Rua Oscar Freire, no elegante Jardins, em busca do salão L’Officiel III e de Antonieta. Tu, como é conhecida, é profissional há 57 anos e desde sempre teve entre suas clientes mulheres judias ortodoxas.

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Antonieta Calçolari é procurada para cuidar da beleza da comunidade judaica

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo de 2010, havia aproximadamente 107 mil judeus no Brasil. Somos a segunda maior comunidade judaica da América Latina (atrás apenas da Argentina) e a 11ª no mundo. Os serviços que Tu mais presta são penteados e cortes, mas não em seus cabelos de verdade, e sim em suas perucas. “Todas as minhas clientes usam.” A mulher ortodoxa cobre suas madeixas para mostrar à sociedade que é modesta e comprometida com seu marido. Elas começam a usar depois que casam, mas a maioria já investe no hábito mesmo na festa de casamento.

Técnica especial

Com tantos anos de dedicação e muito medo de algum acidente deixar uma cliente descoberta no meio do casamento, a cabeleireira desenvolveu uma técnica: ela costura a peruca com náilon nos cabelos da noiva, depois sutura a grinalda e o véu. “Se alguém pisa na mantilha, aquilo pode cair. Deus me livre! É tudo costurado mesmo”, explica. Para que dê certo, ela acompanha a nubente até a hora da dança. “Depois da cerimônia, descosturo o véu, pois é a hora de tirar fotos”.

A peruca, na verdade, é que recebe todo o tratamento. E ela precisa de muito mais tempo e dedicação do que um cabelo normal. Antonieta a recebe uns três dias antes do grande dia. “Preciso lavar e secar bem antes, porque ela tem o registro do que aconteceu anteriormente”, explica. Depois a cabeleireira faz rolo com secador e a deixa “dormir”. “No dia, pela manhã, já solto os fios para poder pentear à tarde”, finaliza.

Diversidade na beleza: hábitos a serem respeitados

– Muçulmanas não podem ser tocadas por homens, exceto familiares. Portanto, evite a gafe de indicar um profissional do gênero masculino para atender uma mulher islâmica.

– Judias e muçulmanas não podem mostrar seus cabelos em público. Se for fazer qualquer serviço, reserve uma sala exclusiva para o atendimento ou sugira ir até a casa dela.

– Uma seguidora do Alcorão (livro sagrado do Islamismo) não pode ficar sozinha com um homem que não seja da sua família. Portanto, cuidado para não se esquecer dessa regra e deixar o assistente e ela desacompanhados de uma mulher, ok?

– Na Coreia do Sul, os homens têm o hábito de se maquiar diariamente. Mas os descendentes que vivem no Brasil só usam make nos dias especiais, como casamento.

– Os coreanos são bastante tradicionais. Podem estranhar um cabeleireiro cheio de tatuagens, por exemplo, mas se gostam de seu trabalho, com certeza voltam a buscar o profissional.

Texto: Geiza Martins (edição de web: Patricia Santos)
Fotos: Gustavo Morita


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