Cachos S.A.: Dicas para quem quer se especializar em cabelos crespos

06/02/2017 | Patricia Santos

A era dos lisos está longe de chegar ao fim. Mas hoje divide espaço com cachos de todos os tipos e diferentes espessuras, defendidos com unhas e dentes por pessoas cada vez mais dotadas de empoderamento

A liberdade da mudança veio gradativa até chegar ao que é hoje. “Na década de 1990, Gisele Bündchen libertou as mulheres da dinastia da chapinha. Nos anos 2000, passamos a ver negras lindas e poderosas, como a modelo Alek Wek, quase careca, é verdade, mas de fios naturais, e depois Lupita Nyong’o, que é rosto de Lancôme”, explica Wilson Eliodorio, do WE Studio (SP), uma sumidade em crespos e responsável pelo visual de Taís Araújo e Maria Fernanda Cândido, entre outras beldades. “O uso do cabelo como forma de expressão do estilo e da identidade vem desencadeando o empoderamento da mulher negra e cacheada, levando-a a buscar cada vez mais um estilo natural”, completa a cabeleireira Cida Fernandes, do Instituto de Beleza Defrisée, que mensalmente atende cerca de 900 mulheres querendo realçar ou ter seus cachinhos de volta.

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Gisele Bündchen, Alek Wek e Lupita Nyong’o, símbolos do empoderamento feminino

Ao redor do planeta, pipocam blogs que mostram as venturas e desventuras das cacheadas. Mas se as redes sociais são repletas de transformações e depoimentos que ajudam no processo de valorização dos cachos de mulheres, homens e crianças, parte das informações compartilhadas como dicas milagrosas são incorretas. E a disseminação das receitas sem respaldo técnico e/ou científico aumentou os casos de problemas capilares. “Existem coisas boas e outras fictícias, que prometem milagres. É preciso cuidado. Tenho recebido clientes apresentando caspa, mau cheiro, quebra e até queda dos fios”, alerta Wilson Farias, cabeleireiro do salão Etnic (SP).

NOVOS CONHECIMENTOS

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O bom nessa mobilização toda, além de promover a autoestima e a liberdade de escolha, é que têm surgido cursos específicos e profissionais especializados. Inclusive cacheadas que abraçaram a carreira de hairstylist para aprender a cuidar das suas próprias cabeças e ajudar outras a fazerem o mesmo.

A jornalista cabeleireira Sabrinah Giampá, de São Paulo, é uma delas. Saiu da assessoria de imprensa em que trabalhava para fazer o blog Cachos e Fatos e, a fim de ter base argumentativa para escrever, buscou aprendizado. “Quanto mais me aprofundava nos cursos, mais aumentava a minha frustração ao constatar que não havia nada específico para cacheadas e crespas. Bonecas, apenas lisas, e o corte feito sempre molhado e com um pente para esticar. Cursar o Deva Curl foi um divisor de águas, pois, com manequins cacheadas vindas dos Estados Unidos, ensinou a manusear fios secos para o corte, respeitando o caimento natural”, comenta ela, que acabou montando o ateliê Garagem dos Cachos, no qual atende, no máximo, seis pessoas por dia, de terça a sexta-feira. “Gosto de trabalhar com cada cliente individualmente e não tenho assistente. Por isso, só divulgo endereço após agendamento feito por e-mail”, conta, dizendo fazer parte de um grupo que reúne experts com a proposta de valorizar o cabelo natural sem uso de químicas que mudem sua estrutura.

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A jornalista-cabeleireira Sabrinah Giampá (SP) é especializada nos cuidados de fios crespos.

Assim como ela, a cabeleireira Alessandra Carelli Feminella, de Florianópolis, compõe o time de especialistas. Idealizadora do Studio dos Cachos, possui formação superior de Tecnologia em Cosmetologia e Estética, certificações internacionais e é membro da Curly Hair Artistry (EUA), entidade que promove treinamento em cabelos enrolados. Além de comandar o seu espaço na capital catarinense, lançou uma linha de cosméticos com direito a uma técnica exclusiva de aplicação que ela nomeou 3Cs. “Os produtos foram fruto de dez anos de estudos, uma faculdade de cosmetologia e uma parceria com um laboratório de grande know-how na região sul do País. Não contêm parabenos, silicones, sulfatos, cera de abelha, óleos minerais e parafina líquida”, explica ela, que ministra um curso de teoria e prática de dois dias e está à frente de um novo projeto. “Iniciamos em julho, em São Paulo, o Workshop Cachos pelas Cidades do Brasil. O intuito é levar informação às encaracoladas em diferentes cidades para que se sintam mais à vontade com seus cabelos no dia a dia. O evento é realizado com apoio e divulgação de profissionais locais”, detalha a empreendedora.

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Alessandra Carelli, hairstylist de Florianópolis, também é expert quando o assunto são os cachos da clientela.

Ao lado da nova safra de especialistas, porém, vale destacar alguns cabeleireiros pioneiros que há muito mais de uma década enaltecem os caracóis da mulherada. Além do próprio Wilson Eliodorio, Cida Fernandes e Wilson Farias (que forma com Willie Mitchel o projeto Mestres dos Cachos), não podemos deixar de citar o PhD em crespos Robson Trindade e a equipe do Studio Fernando Fernandes, que desde 1983 cuida dos cacheados, entre tantos outros que valorizam a beleza natural pelo mundo afora.

Para ir além…

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A Academia Ondina (Campinas, SP) já ministrou cursos voltados para os cuidados com os fios enrolados. Acompanhe no site a programação da escola. Para o aprendizado on-line, o Eduk (www.eduk.com.br) oferece Crespos e Cacheados: Tratamentos, Cortes e Finalização, com os especialistas Wilson Farias, Wagner Beauty e Willie Mitchel. Com carga horária de nove horas, atende aos níveis básico e intermediário.

O que é empoderamento?

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Mais do que uma tradução do inglês empowerement (dar poder), a palavra foi usada pelo educador brasileiro Paulo Freire para definir pessoa ou grupo que realiza por si mesmo as transformações que o levam a evoluir. A ONU Mulheres (entidade das Nações Unidas) desenvolveu sete princípios para o desenvolvimento do empoderamento feminino:
1. Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero.
2. Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não discriminação.
3. Garantir a saúde, a segurança e o bem-estar de todas as mulheres e todos os homens que trabalham na empresa.
4. Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres.
5. Apoiar empreendedorismo de mulheres e oferecer políticas de empoderamento feminino por meio das cadeias de suprimentos e marketing.
6. Impulsionar a igualdade de gênero por meio de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social.
7. Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero.

 

 

 

Texto: Annamaria Aglio (edição de web: Patricia Santos)
Fotos: Shutterstock e divulgação.