Conheça a trajetória do polêmico Neandro Ferreira

30/07/2018 | Redação

Neandro Ferreira é o responsável pelos cortes de Luisa Arraes e de Bianca Bin, que deram o que falar. Descubra um pouco mais sobre o artista por trás do corte

Neandro Ferreira é um típico carioca com alma Londrina. Os cortes do hairstylist saem do lugar-comum, são despojados e inovadores. Com 30 anos de carreira, é considerado um dos mais importantes profissionais do País. Muito conceituado também na Inglaterra, pois tem estilo único e polêmico. Conheça mais desse ícone da tesouras.

Texto: Fátima Telles

Fotos: Gustavo Morita e divulgação

 

Neandro Ferreira mora em Londres e no Rio de Janeiro. Vive nesse circuito e agora ainda incluiu São Paulo. Vai beber na fonte inglesa constantemente para trazer novos conceitos e estilos que saem do convencional. Basta lembrar de cabelos como o de Mayana Moura na novela Passione, que repercutiu bastante e foi copiado no País inteiro.

Agora a polêmica ficou por conta do corte de Luisa Arraes, de Segundo Sol, e de  Bianca Bin, em O Outro Lado do Paraíso. A franja irregular que deu o que falar. Virou discussão em programa de TV, rádio, artigos de blogs e sites e muito blá-blá-blá no Instagram.

Nascido na Ilha do Governador, o cabeleireiro foi criado na típica cultura do subúrbio carioca, frequentando escola de samba e convivendo em comunidades. “Isso me ajudou a não ser um brasileiro complexado e a não ficar preso a conceitos antiquados”, comenta.

Ao completar 20 anos, partiu para um intercâmbio no Reino Unido, mas usou o dinheiro que a família enviava para o curso de inglês para custear estudos na Academia Vidal Sassoon. Para complementar os ganhos, lavou cabelos, serviu café e varreu o chão de salões. De cara, identificou-se com a cultura local, que fervia naquele tempos. “Adorava ver na rua as cabeleiras coloridas, a irreverência e gente vestida de Boy George, com tranças. Quando cheguei lá, achava que sabia alguma coisa de hairstyle, mas vi que não tinha técnica. Minha formação foi toda em Londres”, afirma.

Conheça a trajetória do polêmico Neandro Ferreira

Você gosta de quebrar padrões e a Rede Globo tem sido um forte veículo para isso…

Sempre foi. Já com o visual de Mariana Ximenes, a contestadora Raíssa em América (2005). Só não havia as mídias sociais como hoje, então não teve a repercussão que o cabelo da Bianca Bin, a Clara da novela das 21h. Adoro a parceria com a Globo. É uma emissora que me dá espaço para colocar estilos que vão contra os padrões brasileiros. Geralmente sou chamado para executar o corte do ator ou da atriz que vai gerar polêmica ou se destacar na trama global.

Qual a ideia para o visual dessa personagem?

Eles conceituaram e eu pesquisei para elaborar o conceito. Já me chamaram porque queriam algo diferente, que fugisse dos padrões. Eles me passaram as referências, uma delas a da modelo londrina Alexa Chung, com um cabelo despojado, meio rock‘n´roll. Tudo a ver com a personagem que iria voltar rica, jovem, vingativa e rebelde. Passei uma manhã na Globo e fiz o corte.

Como estava o cabelo da Bianca?

Já estava comprido, sem o aplique. A atriz me deixou à vontade e ficou entregue à personagem. A franja irreverente já havia sido aprovada na emissora.

E o que achou da repercussão do look?

Causou um tremendo rebuliço, com várias reportagens na mídia. Com elas, vieram os comentários. Disseram que o cabeleireiro tinha Mal de Parkinson para fazer uma franja daquelas, outro disse que a filha de 5 anos cortaria melhor… Fui esculachado! Mas logo começaram a copiar. A polêmica foi boa para a personagem. A minha intenção única é educar, mostrar o que está se usando. Fiz um cabelo jovem, shag hair inspirado no rock‘n’roll. Fiquei surpreso com a repercussão que deu. Foi parar até em discussão na rádio!

Você daria um trato no visual de…

Glória Maria e Ana Maria Braga.

Conheça a trajetória do polêmico Neandro Ferreira

Onde busca suas inspirações?

Nas ruas de Londres, no metrô, na academia, estou com minha mente e meu olhar abertos 24 horas. Quando estou em Londres, aproveito e visito outros países, como a Suécia e Alemanha. E também pesquiso no Brasil. Outro dia estava na baixada fluminense. Vou na favela, no gueto, onde precisar. Como corto visuais para personagens, tenho que estar com a mente livre. Gosto de ver o Instagram.

Quando resolveu ser cabeleireiro? Teve apoio da família?

Desde pequeno fui ligado à arte. Sempre irreverente, nunca quis me vestir ou me comportar como todo mundo. Meu primeiro emprego foi numa empresa de seguros e com dois meses já avaliava que não gostaria daquilo para a minha vida. Queria ser alguma coisa que usasse a arte, a criatividade, as mãos. Minha família careta não entendia isso. Meu pai era suboficial da Marinha. Estudei em colégio militar, fui criado na Vila Militar da Ilha do Governador. Fazia boxe porque meu pai queria que eu fosse boxeador. Quando fui para Londres, eu me identifiquei. Lá eu podia ser o que quisesse. O que mais me atraiu nessa profissão foi a liberdade.

Como foi sua mudança para Londres?

Imagine um garoto carioca, criado na praia, com sol, surfe, sair de um lugar colorido, influenciado pela Califórnia e de repente entrar numa Londres urbana e cinza dos anos 1980, totalmente dark, todos vestindo preto, rostos brancos, parecendo vampiros. Lógico, foi um choque cultural, mas fiquei empolgado e de coração aberto para absorver tudo isso. Cheguei numa época irreverente, de cabelo, maquiagem e figurino. Pude aprender muito. Mas nunca reneguei minhas origens. Não tenho complexo de ser brasileiro.

Quem foram seus mestres?

Vidal Sassoon e Tim Hartley, um profissional que começou no Vidal Sassoon, mas quebrou um pouco as regras dentro dos conceitos da Academia e lançou sua assinatura.

No que se diferencia de Sassoon?

Eu não copio Vidal Sassoon. Tenho essa base, mas sou livre de regras e estou sempre querendo sair da minha zona de conforto. Arrisco ao criar. Essa é a mensagem que deixo: “Vamos experimentar!” Profissional brasileiro segue muito os padrões e acaba não tendo coragem de fazer diferente.

Você também trabalha em Londres?

Corto cabelo de clientes, dou aulas em alguns salões como o Saco Hair. E sempre estudando na Vidal Sassoon Academia. Gosto de aprender com os professores jovens de lá, que me trazem o novo. Quero saber o que eles estão pensando.

Eventualmente você segue padrões comerciais?

Não sou comercial. Minha preocupação não é ser famoso, nem rico, nem ter salão grande. Quero fazer o que gosto, essa é a minha paixão pela profissão. E quero deixar um legado, sem ficar estagnado no passado. O interessante na nossa profissão é o desafio. O que acontece é consequência. O que me move profissionalmente é a simplicidade, a paixão e o pé no chão.

Não tem vontade de ter um salão grande?

Não. O público cool prefere salão-butique, com um trabalho personalizado, especializado e com qualidade. As pessoas estão atrás de exclusividade.

Conheça a trajetória do polêmico Neandro Ferreira

Você destaca algum profissional brasileiro?

A Mariana Gorin, do FT Studio Beauty Concept, no Rio de Janeiro, e o AJ Medeiros (falecido no ano passado), que me levou para a Wella Professionals e me influenciou muito. Ele me ajudou bastante e me colocou num outro patamar. Pensávamos bem parecido. AJ faz parte da minha história.

Como foi a experiência de ser embaixador de uma marca? Pensa em voltar?

Fui embaixador da Wella Professionals. Criava conceitos, apresentava coleções e era educador pelo Brasil inteiro. Vou ser sempre grato a eles. Foi uma experiência fantástica. A Wella me colocou num patamar melhor. Pude mostrar e compartilhar meu trabalho com vários hairstylists pelo país. Tive a oportunidade de educar, fazer workshops, lançar ideias para uma empresa que não é nacional, mas está aqui. Fiquei cerca de quatro anos nessa função. Amo ensinar e gostaria de voltar a ser embaixador, desde que tivesse a flexibilidade de não perder a minha personalidade. Já realizei também trabalhos para outras marcas, como Goldwell, L´Oréal Professionnel e Widi Care.

Você tem atuado bastante em São Paulo. Pensa em se mudar?

Se falarem para mim: “Vem para São Paulo amanhã, que você terá a mesma agenda de clientes do Rio”, eu não pensaria duas vezes. Amo a Cidade Maravilhosa, mas São Paulo tem muito a ver com a minha linguagem. Meus estilos são mais vendidos lá.

Pretende continuar mantendo esse circuito Londres-Rio?

Sim. E a experiência em São Paulo também está só começando. Lá, trabalho no Studio Lorena, nos Jardins. Eu já escolhi essa profissão pela liberdade. Porque a profissão vai com a gente para onde formos.

@luisaarraes . @jornaloglobo . @elaoglobo . ✂

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Num país onde as mulheres amam os cabelos longos, qual o segredo para convencer uma cliente a cortar curto?

Primeiro, é necessário ter mais profissionais sem medo de cortar curtos. Segundo: não convencer ninguém. Eu seduzo. Mostro referências. Dou o espelho a ela e aponto o desenho do rosto, os pontos de beleza e digo o que o comprimento iria ressaltar. No final, ela já deseja. Antes de lavar o cabelo, a consulta para seduzir uma mulher é muito importante. Porque se não tiver confiança durante o corte não dará certo. Sempre digo o porquê. Porque vai ficar reto, porque terá uma ponta, porque o longo será mais suave, porque a linha curta deixará o pescoço mais fino… Não uso argumentos como “está na moda”.

As mídias sociais ajudaram muito o cabeleireiro?

Sim. Para cabelos, o melhor é o Instagram. Quando comecei, era considerado um maluco pelo meu estilo. Hoje em dia, as pessoas podem ver que não estou inventando nada. As grandes metrópoles fazem o que faço. A mídia digital deu essa oportunidade de conhecimento. O que vem de gente aqui porque viu meu trabalho no Instagram! Fica mais fácil, porque a cliente já conhece antecipadamente, identifica-se e vem porque gosta. Todo dia posto alguma coisa. Tenho um cuidado com o que divulgo. E respondo sempre.