Descubra a história de Mauro Freire, o mago da navalha

27/11/2017 | Redação

O hairstylist gaúcho Mauro Freire se dedica ao universo da beleza há mais de três décadas. Em uma conversa exclusiva, ele avalia sua carreira e conta como foi importante estar nos bastidores dos desfiles de moda.

 

Texto: Fabiana Gonçalves. Fotos: Gustavo Morita

 

Em agosto de 2017, a Casa Mauro Freire comemorou 12 anos. E quem está à frente dela tem muita história para contar. Aos 52 anos, Mauro Freire afirma que todo esse tempo foi essencial para se estabelecer no segmento como profissional completo. Ele dedicou 32 anos ao universo da beleza. “Sou da época em que o cabeleireiro era maquiador e manicure. A experiência que tenho veio dos backstages de desfiles. Lá eu aprendi a fazer de tudo: penteados, maquiagem, corte e, muitas vezes, até as unhas das modelos”, lembra.

Mas foi como pioneiro do corte com lâminas que ganhou status, sendo considerado até hoje como o “mago da navalha”. Autodidata, ele afirma que a inspiração para cada visual aparece na hora em que a pessoa chega na sua bancada. “Não sei olhar para alguém e dizer o que lhe cai bem. Mas ao sentar a cliente na cadeira, olhar nos olhos e conhecer um pouco da sua realidade, eu me inspiro, lanço mão da minha criatividade e corto, faço mechas… É assim que funciona”, afirma. “Não consigo fazer um corte igual ao outro. Faço um trabalho personalizado. Acho que é isso o que me faz ser diferente”, explica Mauro Freire.

Mauro Freire

Conheça um pouco mais da trajetória de Mauro Freire, este gaúcho de Porto Alegre que há três décadas vive na capital paulista.

 

Qual é o segredo do trabalho com navalha?

Tenho uma técnica própria: chego a usar quatro navalhas importadas em um único corte. Acho que esse é o motivo do sucesso. Uma vez que a lâmina perdeu o fio, é hora de trocá-la, não adianta insistir. Até porque você vai prejudicar o resultado do visual da sua cliente, que certamente não voltará mais. A navalha deve sempre deslizar suavemente, senão vai mastigar e detonar o cabelo. É um trabalho muito sério. Certa vez, ouvi de um cabeleireiro que ele queria reciclar a lâmina. Eu disse que se quisesse executar um bom serviço, ou dispensaria a navalha assim que sentisse que o corte não estava perfeito, ou então que o fizesse com tesoura.

 

Por que cortar a seco?

Porque é com os fios secos que consigo ter a certeza do caimento que o cabelo tem, sua ondulação, onde o corte realmente está. Imagine cortar um cacheado ou crespo molhado? Ele não apenas encolhe, mas muda totalmente a sua estrutura. Mesmo num liso, consigo ver o resultado antes até de escová-lo.

 

Então essa é a regra?

De maneira alguma. Eu faço dessa forma porque é assim que dá certo para mim. Mas um cabeleireiro, para ser completo, precisa saber cortar cabelo com as ferramentas que tem à mão: tesoura, navalha, seja com os fios secos ou molhados. Não importa. Ele precisa dominar tudo. Isso é o que realmente importa. Até porque foram os anos de experiência que me trouxeram a técnica que emprego hoje. Claro que não comecei usando a navalha. No início, eu fazia o corte apenas com tesoura e nos fios molhados, mas na hora de escovar, via as imperfeições e quase fazia todo o serviço de novo, finalizando com ele a seco. Depois passei ao corte desfiando, antes de chegar ao trabalho somente com a navalha.

 

Mauro Freire

Você nunca usa a tesoura?

Uso, sim. Até porque tem cabelo que a navalha não vai deslizar e dar um resultado bacana, como, por exemplo, aquele com muita química, duro, seco demais ou poroso. Há momentos em que a tesoura é bem-vinda. Nesses casos, faço todo o trabalho com ela e finalizo com a navalha. Mas no geral, corto com a navalha e, só para acertar alguns fiozinhos, uso a tesoura.

 

Como avalia sua carreira?

Passei tantos anos atuando nos backstages de desfiles de moda, fazendo ensaios de inúmeras modelos e artistas que desenvolvi rapidez e eficiência na criação. Também aprendi a ouvir a cliente e a enxergá-la com outros olhos. Não basta saber o corte desejado, gosto de conhecer como é o seu dia a dia, como se veste e se comporta, desde o momento em que sai do salão até chegar ao fim do dia. Assim, consigo perceber suas necessidades e qual visual é mais prático para o cotidiano dela. Gosto que a minha cliente seja independente. Se ela tiver qualquer compromisso de última hora, saberá se virar muito bem com o seu cabelo. Penso em tudo isso quando ela senta na minha bancada. Sigo a tendência da pessoa, crio em cima do que ela gosta. Com o tempo, eduquei o olhar. Uso a criatividade por meio do que vejo. Analiso mais do que falo e dessa maneira elaboro os looks na bancada.

 

Isso quer dizer que a cliente precisa se entregar a você?

Exato. Isso é fundamental e ela sabe disso. Chega e logo diz: “Mauro Freire: faz o que tu quiseres e o que achas que fica bem em mim”. E olha, garanto que ela nunca sai daqui com um cabelo igual ao anterior.

 

Mauro Freire

 

O que acha das tendências?

Não é assim: ontem acabou o outono, hoje começou o inverno e a partir de agora tudo vai ser diferente. A mulher deixará de ser loira e passará a ser ruiva porque é moda, vai trocar o long bob pelo chanel porque é tendência. A vida real é outra. Claro que procuro sempre me manter atualizado, leio muito, amo viajar pela Europa, principalmente a Paris e observar a moda das ruas. O que as mulheres estão usando, quais tipos de cabelo, como se vestem e se comportam. Isso pode me servir de referência. Mas não quer dizer que vá usar tudo isso nas minhas clientes. Aqui a realidade é totalmente outra. Aliás, não copio nada. Se fizer isso, deixo de lado a minha identidade de criador. Aprecio o bonito no imperfeito, vejo a beleza no feio. Ninguém é igual e todos têm seu lado belo. É justamente isso o que gosto de mostrar nos meus trabalhos.

 

Então você não as repete nas clientes?

Não da forma como a mídia exige. Hoje a moda é o loiro X com mechas Y. O corte deve ser assim ou assado. Não sigo e nem prego nada disso para a minhas clientes. É claro que se alguma delas chegar pedindo isso ou aquilo, vou analisar e ver se combina com ela e com o seu contexto de vida. Porque uma mulher não é só um rostinho e um cabelo. E eu observo tudo. Se o que ela quer não lhe cai bem, vou explicar o porquê e mostrar o que fica melhor. Mas de um modo geral, a minha clientela não vem com essa expectativa de apresentar uma tendência.

 

Por isso você tem aparecido menos nos últimos tempos?

Se é para falar algo que não condiz com a realidade ou inventar, prefiro não dar entrevista. Ou se não tenho novidade de verdade, fico calado. Você não pode sair por aí inventando tendências só para estar na mídia. É o seu nome que está em jogo. Senão, a minha cliente sentará na bancada e dirá: “Então, Mauro Freire, tu disseste que agora a vez é cabelo liso e o meu é crespo, e tu afirmaste que deveria valorizá-lo. E agora, o que faço?” A gente não deve brincar com isso. Procuro valorizar a beleza que a pessoa tem. Se ela é morena e quer ficar loira, vou buscar quais tonalidades ficam bem nela, mas não vou, por exemplo, deixá-la platinada só porque está na moda.