Inclusão no salão de beleza vai além de rampas de acesso e começa no atendimento

04/12/2017 | Geiza Martins

O mercado da beauté já está investindo na inclusão de pessoas com necessidades específicas. Aprenda com essa clientela e profissionais para lá de especiais.

O Brasil, 6,2% da população possui algum tipo de deficiência, seja auditiva, visual ou física. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que em 2013 realizou a Pesquisa Nacional da Saúde. Ao mesmo tempo que somos um dos líderes do mercado de beleza mundial, precisamos saber como receber essa parcela da população. Seu salão já está pronto para atendê-los? Ainda não? Então acompanhe o exemplo de inclusão de empreendedores e clientes que nos mostraram que é possível, sim, unir beleza à inclusão!

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Aulas de beleza de Themis Briand

Questão de tato

Para um profissional atender uma cliente com deficiência visual, é preciso empatia, ou seja, colocar-se no lugar dela. E entender como ela “enxerga” o que é ser e estar maquiada. Mais do que criar um look que permita a todos verem como ela está linda, a experiência de fazer o make-up em uma pessoa cega deve ser sensorial. Que tal o exercício da automaquiagem?

Um exemplo é o da cearense Themis Briand, de 32 anos que desenvolveu tutoriais para cegos. Ela acompanhou sua melhor amiga, Thais Frota, perder gradativamente a visão devido a uma doença degenerativa. “Antes, organizei os produtos, para saber onde estava cada coisa, e então fui tateando. Fiquei ali durante três horas, sentindo a textura dos cosméticos, pintando-me com as mãos, afinal, o que eu tinha era o tato.

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Tais Frota (loira) com Themis Briand

O resultado foi algo simples, do dia a dia”, conta. Essa história deu tão certo que Themis criou um canal no YouTube, passou a dar aulas no Instituto dos Cegos de Fortaleza e hoje sonha em levá-las para outros Estados brasileiros. Mas como seria um tutorial de maquiagem para cegos?

Thais explica que a ideia é que qualquer pessoa possa entender os itens e o próprio rosto. “Descrevemos em detalhes os formatos das embalagens, suas funções, suas cores. Também explicamos as diferentes partes da face, esclarecendo onde se localizam regiões como o côncavo dos olhos e a maçã do rosto”, conta. Outro cuidado é detalhar como os itens devem ser utilizados, a área exata de aplicação e como evitar erros. “O objetivo é proporcionar independência. Não é preciso que outro aprove seu make-up.”

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Lak Lobato

Agendamento nota dez

Na hora de aprender sobre como atender alguém, nada melhor do que ouvir o próprio cliente. A escritora Lak Lobato tem 40 anos e desde os 10 é deficiente auditiva. Autora dos livros Desculpe, não Ouvi e E não É Que Eu Ouvi?, ambos voltados para questões da deficiência, é usuária de um implante coclear – um dispositivo eletrônico implantado na cabeça e no ouvido que visa oferecer ao paciente uma audição próxima a de um ouvinte comum. Ela vai ao salão a cada 15 dias e garante que as dificuldades começavam no momento de marcar o horário.

“Tinha de ir lá pessoalmente, porque não existia uma forma de entrar em contato que não fosse por ligações. Hoje, depois do implante, falo no telefone com segurança, mas é algo bem recente”, conta Lak. Ela há cinco anos consegue usar o aparelho, inclusive em seu ambiente de trabalho, onde é analista de inteligência e depende desse meio de comunicação. Em surdos não oralizados, que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar, a dificuldade é ainda maior, pois são raros os profissionais que sabem usá-la.

 

Por celular

Por outro lado, os avanços tecnológicos também têm ajudado surdos a se comunicarem. “Agora, alguns lugares têm contato por WhatsApp. Mas passei a vida dependendo de terceiros marcarem para mim ou ter de ir até o local só para agendar”, recorda. Superado esse primeiro obstáculo, já no salão, o cliente com deficiência auditiva precisa retirar o aparelho ao tingir, lavar e secar o cabelo. Isso exige que o profissional seja muito cauteloso para não machucar o local de fixação dele, uma protuberância subcutânea no couro cabeludo.

O próximo passo é ter boa vontade para se comunicar. “Uma vez sem o implante coclear, a minha comunicação fica por conta da leitura labial. Então o cabeleireiro tem de se preocupar em sempre falar de frente para mim, nada fácil quando está lavando meu cabelo, por exemplo”, afirma. Mesmo utilizando o aparelho, a audição não costuma ser 100%, alerta a escritora. “A atenção do cabeleireiro é importante. Salão é um local barulhento. Nem sempre consigo ouvir com a mesma facilidade que um ouvinte em ambiente de ruído. Tem manicure que usa máscara. Então ela precisa se lembrar de falar mais alto, de ter boa vontade de repetir ou abaixar a máscara.” Para Lak, o preconceito também deve ser combatido. “Já aconteceu de encontrar profissionais grosseiros, que me tratavam como se eu tivesse total incapacidade de estar ali. Acabo não voltando.”

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Desde 2014, o cabeleireiro José Valente percorre o Distrito Federal para atender clientes com dificuldade de locomoção

Beleza delivery

Ir ao salão pode ser um verdadeiro dilema para pessoas com deficiência. Pensando nisso, desde 2014, o empresário José Valente percorre todo o Distrito Federal com o seu espaço itinerante de inclusão montado dentro de uma van (seu projeto já foi citado na CABELOS&CIA edição 239, em janeiro de 2016). A ideia veio de uma constatação: alguns clientes não conseguiam ir aonde ele trabalhava. Foi aí que decidiu ele mesmo locomover-se até a residência das pessoas, carregando produtos, tesouras, lavatório, cadeiras. Tudo para atender uma clientela que, segundo ele, está em ascensão. Antes de virar cabeleireiro, José era vendedor de carros.

Mesmo com imprevistos, seu salário triplicou em relação ao emprego anterior. “É um trabalho de confiança e cuidado. Chego a cuidar de gente acamada, que não sai de casa”, relata. O empresário ainda percorre cidades oferecendo palestras para profissionais da área. A ideia é inspirá-los a oferecer o serviço para quem precisa, em qualquer lugar. “Acabamos de lançar nossa própria linha capilar. A intenção é que 5% do valor das vendas seja destinado à compra de cadeiras de rodas para doação.” É um projeto de inclusão e tanto, não?

Fotos: divulgação e Shutterstock