O talento múltiplo do hairstylist Rodrigo Cintra. Veja entrevista

29/08/2016 | Patricia Santos

Com uma legião de seguidores (são quase 5 milhões no Facebook e 1,5 milhão no Instagram!) e há sete anos no Esquadrão da Moda, do SBT, Rodrigo Cintra é uma celebridade. Mas, antes de tudo, é um cabeleireiro, como gosta de frisar. Sua agenda no Studio W Iguatemi, em São Paulo, é concorridíssima. E suas palestras e seus workshops atraem cerca de 15 mil pessoas ao ano! Aos 37 anos de idade e 23 de carreira, considera-se um profissional realizado. Batalhou muito para isso, mas também contou com a sorte e soube planejar. Aos 18 anos, foi estudar na Espanha. Quando finalizou o curso, em vez de “mochilar” pela Europa, engajou-se em outro aprendizado antes de retornar ao Brasil. Ariano, signo pioneiro, percebeu que havia um grande espaço para a formação profissional e se dedicou ao treinamento.

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Atencioso e de sorriso fácil, não esconde a origem simples – teve uma infância financeiramente complicada, pois seus pais eram muito jovens: a mãe tinha 14 anos e o pai, 18. Contou, porém, com o apoio do avô, seu exemplo de vida. Ganhou vários prêmios e assinou capas e editorias de revistas (o primeiro passo a passo, recorda ele, foi para a Cabelos&cia). Escreveu dois livros: Cortes e Modelagens e Como Seu Cabelo Pode Mudar Seu Visual. E é consultor da Olenka, marca de produtos profissionais. Ufa! Rodrigo Cintra faz muita coisa. E tudo bem feito!

Cabelos&cia: Você sonhava ser militar, mas mudou de ideia após conhecer o mundo da beleza. Como foi esse “encontro”?
Rodrigo Cintra: Uma tia era podóloga em um dos salões mais renomados de São Paulo, o De La Lastra, que estava contratando jovens aprendizes. Ela me indicou, mas a princípio não quis, meu plano era ser piloto da Aeronáutica. Tinha de 13 para 14 anos e não havia demonstrado nenhuma habilidade com tesouras. Ela insistiu, argumentando que poderia ser uma boa carreira, pois via o quanto os cabeleireiros prosperavam. Eram meados dos anos 1990, quando o mercado de beleza começou a crescer e a se profissionalizar. Fui de curioso e acabei gostando.

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A experiência de Cintra, aliada à didática, costuma atrair uma legião de profissionais aos seus cursos pelo Brasil afora

 

E no começo da carreira, quanto tempo trabalhou como assistente até chegar a ser um cabeleireiro?
Aos 14 anos, fui contratado como aprendiz. Comecei servindo café, varrendo o chão e, aos poucos, fui aprendendo todo o processo: lavatório, coloração, reflexo, permanente (em alta na época). Por último, vinham os cortes, a etapa que marcava a profissionalização propriamente dita. Mas, para isso, era necessário fazer o curso de formação no Instituto Llongueras, em Barcelona. Quem não tinha essa instrução, trabalhava como assistente por anos e anos. Rafael de la Lastra prezava o excelente nível técnico do salão e era amigo do Llongueras. Como não podia cortar lá, treinava em casa com as minhas “vítimas” – família, amigos, namorada [risos]. Quando completei 18 anos, fui para a Espanha.

Como foi a mudança para lá?
O salão pagava o estudo, mas despesas com moradia e alimentação ficavam a cargo do aluno. Comecei a economizar para bancar a temporada na Espanha. A formação durava 12 meses e, quando terminei, continuei estudando. Fiz aperfeiçoamento em cor e corte no lugar mais chique da época, o Cebado. Para bancar, estagiei no salão-escola Llongueras. Investi todo meu dinheiro, tempo e energia na minha formação. Não viajei nem pela Espanha, mas curti muito Barcelona. Após um ano e cinco meses, voltei duro, mas com uma bagagem profissional excelente.

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Rodrigo Cintra e sua equipe de assistentes no Studio W Iguatemi (SP)

 

E o seu regresso ao Brasil?
Voltei para o De La Lastra, aí sim como profissional, mas sem clientes. Fazer uma boa clientela pode levar muitos anos. Percebi, então, que havia uma boa oportunidade como educador – naquele tempo, início dos anos 2000, poucos cabeleireiros saíam do Brasil para estudar. Paralelamente ao meu trabalho no salão, aos 22 anos, passei a dar treinamento. No começo, juntava grupos de 10 a 15 profissionais aos domingos e às segundas, quando estava fechado para o público. Pegávamos listas telefônicas comerciais e telefonávamos para os espaços de beleza, atrás de interessados.

Além de hairstylist, você também se encontrou como educador-palestrante. Em que momento descobriu esse dom?
Acho que, mais do que um dom, foi uma conquista. Comecei com grupos menores. O treinamento era um sucesso. Um bom corte levava uma hora, e eu ensinava uma técnica do Llongueras, em inclinação, que permitia o trabalho em 15 minutos. O salão ficou pequeno, passamos a alugar salas de hotéis e as marcas de cosméticos descobriram o nosso trabalho. E aí vieram as viagens pelo Brasil inteiro com o patrocínio delas. Conforme as feiras de beleza foram crescendo, a partir de 2004, eu já estava bem posicionado no mercado de treinamento.

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Chegou a fazer algum curso (de oratória, por exemplo) ou o falar bem e a didática foram adquiridos ao longo do tempo?
Nunca estudei para ser palestrante, mas o fato de ter iniciado com grupos menores ajudou. Quando você fala para cinco pessoas, dá menos medo de falar para dez, e assim por diante. Chega um dia em que você está falando para mil com espontaneidade. Às vezes, um treinador pode ser bom em teoria, mas, na prática, mantém um distanciamento do público. Trabalhar com uma clientela de bom nível também ajudou a desenvolver a minha fala, que nem sempre é perfeita. Gravando um programa da Eliana, cometi um erro de português no qual só reparei depois, quando assisti. Nas gravações seguintes, fiquei travado, preocupado em falar direito. Isso tirou a minha espontaneidade, o que também não foi legal. O episódio me marcou, e a partir daí procuro não me ver mais na televisão.

Ainda sobre o tema educação, qual é sua real importância para o profissional de beleza?
É um mercado muito dinâmico. Você tem de estar sempre atualizado, o que não é nada difícil hoje em dia – as informações chegam ao profissional. No início da carreira, tive de sair do Brasil para estudar. Há alguns anos, os brasileiros precisavam vir a São Paulo. Hoje, existem cursos de qualidade no País inteiro. Além da internet, das mídias sociais, das revistas especializadas… Só não se atualiza quem não quer, e a maioria faz isso. Observo, porém, um comportamento arriscado em alguns hairstylists de sucesso. Eles acreditam tanto na qualidade daquilo que fazem – e que, de fato, fazem bem –, que perdem a humildade de olhar o outro e o novo. Dessa forma, podem acabar desatualizados. Manter a mente aberta é fundamental, mesmo porque houve uma mudança de paradigma: antes, o que o cabeleireiro falava para a cliente, ela acreditava. Agora, ela está antenada, lê sites, blogs, revistas. Se percebe que o profissional não está acompanhando, deixa de confiar nele.

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E qual sua opinião sobre os cursos ministrados aqui no País, comparados com os do exterior?
Atualmente, considero que são equivalentes. A qualidade técnica do treinamento dado no Brasil melhorou muito. E graças à multiplicidade de texturas de cabelo – liso, ondulado, crespo, étnico, oriental – encontrada aqui, os cabeleireiros brasileiros são os melhores e mais completos do mundo. Não é à toa que fazemos tanto sucesso quando trabalhamos no exterior. É sempre bacana, porém, experimentar culturas diferentes, conhecer técnicas novas. Viajar faz com que o profissional tenha mais referências – o que ajuda até na conversa com os clientes.

Agora vamos falar de TV… É verdade que você começou por acaso no programa Dia a Dia, da TV Bandeirantes?
A TV estava ligada e uma matéria sobre depressão chamou a minha atenção, já que havia um caso na família. A entrevistada estava arrasada e o cabelo com uma raiz preta enorme. Aquilo me tocou muito e resolvi ajudar a mulher. Mandei um e-mail para a Band, dizendo para que ela me procurasse no salão, mas a produção me chamou para fazer a mudança ao vivo (apenas a tintura foi feita antes), o que não era comum na época. A audiência subiu na hora e, no mesmo dia, fui convidado para apresentar um quadro semanal no Dia a Dia – o “Esquina da Beleza”, em que fazia transformações em mulheres escolhidas na rua. Depois, atuei em outros dois – Bem Família e Atualíssima. Foram quatro anos na emissora.

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Ao lado de Vanessa Rozan, parceira no programa Esquadrão da Moda, do SBT

 

E como aconteceu fazer parte do Esquadrão da Moda?
Fui convidado, pois a produção buscava um cabeleireiro acostumado com TV. O programa é um sucesso há sete anos – e a audiência continua subindo! No início, o espaço destinado para cabelo e maquiagem, a cargo da Vanessa Rozan, era menor, mas foi crescendo devido à repercussão. Faço também um quadro no Programa da Eliana, com transformações e dicas, a cada dois, três meses.

Depois do Esquadrão, sua vida nunca mais foi a mesma. Dá para ter momentos de privacidade com tanta exposição?
Lido bem com a fama, nunca deixei o sucesso subir à cabeça. Não sou um ator, mas um profissional de beleza que achou espaço na televisão para mostrar o trabalho – as pessoas veem, gostam e me procuram no salão. Não só mulheres, mas crianças e homens de todo o País. Muitos fazem surpresa para esposas e filhas, trazendo-as para o Iguatemi, dizendo que é para comer ou ir ao cinema. Mas quando chegam ao shopping, vão para o Studio W e eu faço a transformação. Os cabeleireiros já me conheciam por causa das palestras, mas os clientes não. Além disso, o profissional, ao fazer um curso meu, passou a colocar o certificado na parede, um sinal de prestígio junto à sua clientela.

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E com Isabella Fiorentino e Arlindo Grund

 

Como você consegue se dividir entre salão, programa de TV, workshops Brasil afora, campanhas e família?
Meu tempo em casa realmente é curto. Minha esposa é uma santa [risos]. Ela trabalha na parte financeira de uma empresa, mas em regime de home office, para ficar mais com o nosso bebê, de 1 ano e meio. Reservo um período para a família, que é sagrado – fico depois dos finais de semana em casa e às quartas-feiras, quando gravo o Esquadrão da Moda, volto cedo. E tiro três férias de dez dias por ano, para viajar com eles. Esperei estabilizar minha vida profissional e financeira para ter um filho – sou casado há dez anos. Agora, posso me dar ao luxo de permanecer mais em casa. Aliás, pretendo ter mais um filho e adotar uma criança.

E de onde vem tanta energia?
Eu gosto do que faço. Como atuo em várias frentes, não há espaço para a monotonia. E tenho sempre novos projetos. O atual é um treinamento on-line para capacitar cabeleireiros para ensinar. A ideia é que o profissional possa ganhar um dinheiro extra no salão dele, aos domingos, como eu fiz no começo da carreira. Acredito que o momento de crise é o melhor para investir em aprendizado – não só para otimizar o tempo como para estar mais capacitado quando ela passar.

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Cintra recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira

 

Você pensa em ter seu próprio salão de beleza algum dia?
Entendo que, para dar certo, o dono precisa estar o dia inteiro dentro do seu espaço, acompanhando tudo de perto. Como exerço muitas funções, isso não seria possível para mim. Quando estou no Studio W, não tenho tempo nem para comer direito! Mas não digo “nunca”: se algum dia a vontade de ter meu próprio salão tocar meu coração, eu o terei.

E como é a sua relação com os sócios e os outros profissionais do Studio W, onde você atende há mais de seis anos?
É boa, tranquila. Só trabalhei em dois salões na vida, no De La Lastra, dos 13 aos 30 anos, e no Studio W Iguatemi. Mudei pouco e acredito que esse seja o segredo de ter uma boa clientela. O Studio W tem uma grande vantagem – aqui é uma pista de avião e cada um voa como quer. Quem quer ir de avião grande, vai. Quem quer voar de pequenininho, também. A minha atual equipe – tenho 12 assistentes e secretária – é a melhor que já tive. Atua comigo nos salões, dá palestras, participa dos eventos, dos programas de TV – é o Esquadrão do Cintra [risos]. E para eles, é interessante financeiramente – já que todas as atividades são remuneradas. O profissional tem de ganhar bem! Gosto de formá-los, começam como aprendizes e depois alçam voo solo, como é a ordem natural das coisas. Tem espaço para todo mundo.

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Quanto à parceria com a Olenka, você ajudou a desenvolver alguns produtos?
A maioria das marcas profissionais vende também no varejo. A Olenka optou por trabalhar somente com o expert – assim, evita situações como a cliente pagar R$ 100 por uma hidratação no salão e achar o cosmético na perfumaria por R$ 12. E por isso casou direitinho com o meu trabalho com os cabeleireiros. Participo do desenvolvimento dos produtos – são criados por químicos capacitados e eu testo todos eles no dia a dia, dou “pitacos”, digo se estão bons ou precisam de alteração… Assinei contrato de exclusividade, o primeiro em 23 anos de carreira. Ela está crescendo, sendo reconhecida.

Você já se considera um profissional realizado ou ainda tem algo a alcançar?
Sim! Quando comecei a trabalhar, segui o conselho do Rafael de la Lastra: espelhe-se sempre no maior, não em quem está ao seu lado. Quando lia que um cabeleireiro tinha quase um mês de espera na agenda, não acreditava. Mas quando a minha chegou a três semanas, vi que era possível. Minhas metas financeiras também foram atingidas. Meu desafio atual é fazer com que a Olenka tenha o reconhecimento das marcas top internacionais. E no futuro, talvez, montar uma rede de salões.

Qual sua mensagem aos leitores, profissionais veteranos ou iniciantes, que almejam a fama?
As redes sociais são ferramentas simples, acessíveis a todos. Hoje, são vários os cabeleireiros que alcançaram a fama via Instagram. Você não precisa mais do que um celular e boa vontade. Tanto o Facebook como o Instragram são bacanas. No meu caso, o primeiro traz mais profissionais para os cursos, e o segundo, mais clientes para o salão. A televisão é um caminho, atender atrizes, buscar o público que está sempre em evidência. Mas é bom deixar claro que a mídia, seja qual for, traz a clientela para você uma vez. Se o seu trabalho não atender à expectativa dela, você não a manterá.

E um conselho para lidar com o momento de crise econômica?
Quando voltei para o Brasil, precisava montar a minha clientela. Fui numa pizzaria bacana no Morumbi, onde ficava a filial do De La Lastra em que trabalhava, e fiz uma parceria: quem comprava uma pizza ganhava um corte. Cortei um monte de cabelos de graça para divulgar meu trabalho. É preciso ter iniciativa, criatividade e arregaçar as mangas. Não dá para esperar o cliente cair na cadeira.


ONDE ENCONTRAR RODRIGO CINTRA
Além do Studio W Iguatemi e dos programas de TV, ele está nos seguintes canais:
Site: www.rodrigocintra.com
YouTube: rodrigocintrahair
Snapchat: rodrigocintra1
Instagram: @rodrigocintra
Facebook: cintra.rodrigo

 

Texto: Olga Penteado (edição de web: Patricia Santos)
Fotos: Gustavo Morita e divulgação