Tiago Parente, o encantador de estrelas

07/03/2017 | Patricia Santos

Fazer a lista das celebridades que entregam seus cabelos nas mãos de Tiago Parente é como montar o casting de uma novela: as famosas são tantas que fica mais fácil dizer que o hairstylist é mesmo o favorito das estrelas.

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Na realidade, o mestre das tesouras já era apaixonado por atores e atrizes brasileiros desde que vivia em Lisboa, sua cidade natal. “Todos os portugueses adoram as novelas produzidas aqui e eu era mais um a assistir e sonhar em conhecer o País”, comenta. O desejo virou realidade em 1997, quando o hairstylist veio de férias ao Rio de Janeiro.

Apaixonou-se por um nativo, estendeu a temporada por mais tempo e, entre idas e vindas, decidiu abandonar a faculdade de Belas Artes e fincar suas raízes na cidade. Virou, por assim dizer, um legítimo luso-carioca. A aposta deu certo e hoje, aos 38 anos, Tiago é sócio de um dos salões mais luxuosos da zona sul carioca, o TP Lounge. O espaço foi inaugurado em 2014, ao lado da amiga e maquiadora Jessica Dannemann. Estilo butique, ocupa três andares decorados com requintes parisienses, mobiliário Luís XV e paredes cobertas por obras de arte originais de Picasso, Andy Warhol e Salvador Dalí.

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Tiago Parente é sócio de um dos salões mais luxuosos da zona sul carioca, o TP Lounge. O espaço estilo butique, ocupa três andares decorados com requintes parisienses, mobiliário Luís XV e paredes cobertas por obras de arte originais de Picasso, Andy Warhol e Salvador Dalí

 

Até entrar para o rol da fama, no entanto, Tiago montou sua carreira, digamos assim, mecha por mecha. Conseguiu ser relações-públicas na joalheria H.Stern e, deste modo, conheceu atrizes, na época, iniciantes, como Juliana Paes, Alinne Moraes e Sheron Menezzes, além de maquiadores como Fernando Torquatto. Dois anos depois, já estava com uma sala alugada em Ipanema, que logo ficaria pequena demais para a vasta procura. Ao mesmo tempo, frequentou algumas das melhores academias europeias para ser um ás das tesouras: Llongueras, em Barcelona; Jacques Dessange, em Paris; Toni&Guy e Vidal Sassoon, em Londres.

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Com as clientes e amigas Juliana Paes, Stephany Britto e Fernanda Freitas

 

As atrizes ganharam fama e se tornaram as principais porta-vozes de seu talento. Durante os últimos três anos, Tiago também foi embaixador e garoto-propaganda da marca TRESemmé, ao lado de Alinne Moraes. Junto com Juliana Paes, estrelou o reality show Por um Fio (no canal a cabo GNT). O programa retorna à grade para nova temporada em 2017, agora tendo como partner a atriz Paolla Oliveira. Para saber mais sobre esse português de sotaque carioca, acompanhe a entrevista.

Cabelos&cia: Você é uma celebridade no universo da beleza. Como se sente em relação à fama?
Tiago Parente: Eu não me sinto nada famoso e acho até engraçado, pois sou do tipo recluso. Passo a maior parte do tempo trabalhando e tenho pouco contato com o mundo exterior. Meu maior prazer é saber que as brasileiras sonham em ter um corte de cabelo igual ao da Juliana Paes ou da Marina Ruy Barbosa, por exemplo.

Como é trabalhar com tanta celebridade?
É bastante tranquilo, pois muitas atrizes são minhas amigas há vários anos. Conheci Alinne Moraes e Juliana Paes, por exemplo, quando ainda não eram tão conhecidas. Desenvolvemos um relacionamento de amizade e de confiança ao longo do tempo. Por isso, tenho liberdade em fazer críticas, elogios ou sugestões.

Como é seu trabalho para a Rede Globo?
Sou convocado quando os caracterizadores e o diretor da novela já sabem o tipo de visual que desejam para cada personagem. Sugiro os cortes que funcionam melhor para cada atriz e elas, geralmente, aceitam minha opinião. Transmito instruções aos cabeleireiros que vão cuidar dos cabelos no dia a dia da gravação, visando a continuidade do look na tela. Muitas vezes, essas atrizes também vêm ao salão para a manutenção do visual. É comum que me visitem ao fim do trabalho para mudar o look.

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Os lavatórios possuem função de cromoterapia

 

Em sua opinião, qual é o status atual dos cabeleireiros brasileiros?

Existem talentos, mas também uma disparidade na formação dos profissionais. Alguns poucos se destacam, enquanto a maioria não atingiu seu potencial. A culpa não é deles e sim da falta de condições para estudar no exterior ou mesmo no Brasil. Em muitas cidades, o corte custa R$ 15. Como é possível viajar a Paris ganhando tão pouco? Os bons cursos custam caro.

Como tentar reverter essa situação?
Investir em educação é fundamental, assim como cultivar a paciência. Um bom profissional não se forma em um mês. É necessário tempo para atingir a excelência. Quem não pode fazer cursos precisa tentar se manter atualizado por meio de revistas, internet, vídeos no YouTube, workshops e com a ajuda das boas marcas.

Mas você começou a profissão como autodidata, não é?
Sim, é verdade. Comecei fazendo maquiagem e cortando os cabelos das amigas. Mas quando abri a minha sala, concluí que não podia passar o vexame de não saber cortar. Decidi passar temporadas na Europa para apostar tudo em educação. Frequentei a academia Jacques Dessange, da Rue du Rocher, no coração de Paris, além de muitos outros cursos.

Qual é o seu segredo para se manter sempre por dentro de todas as tendências?
Faço parte da Haute Coiffure Française, instituição que define as tendências mundiais em estilos de cabelos e maquiagem em conjunto com os principais estilistas de moda do mundo. Viajo a Paris duas vezes por ano, geralmente nos meses de fevereiro e setembro, a fim de acompanhar de perto todos os desfiles. Acredito que essas viagens são muito valiosas para o meu repertório e procuro trazer para cá o que combina melhor com o look das brasileiras.

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Ao lado de Yasmim Brunet e Thaila Ayala

 

Você próprio é um lançador de tendências. Como as desenvolve?
Na maioria das vezes, isso acontece organicamente, por meio de minhas clientes famosas. Busco fazer algo diferente e menos monótono, que valorize o estilo de cada uma. Os cortes ficam conhecidos porque elas aparecem em muitos sites e revistas. Resolvi batizar alguns deles, como o Long Bob, o Trapézio e o A-line. O Trapézio de Juliana Paes virou um hit, todo mundo quer. Ele tem a base reta enviesada na altura do queixo ou um pouco abaixo. Dei esse nome porque valoriza o desenho da face. O A-Line tem as mechas frontais bem longas, com a nuca curta e muitas camadas para um estilo ousado, mas chique. O Long Bob nada mais é do que uma versão comprida do chanel. Pode ir até quatro dedos abaixo da clavícula, desfiado na base e com a frente inteira. Outro haircut muito pedido no salão é o Corte Brunet, um desfiado médio, ideal para quem tem cabelos lisos e pesados, como os da Luiza.

A recente transformação de Juliana Paes foi surpreendente. De quem foi a ideia de usar os fios cacheados curtos e com movimento?
A mudança se deu em etapas. Antes da novela Totalmente Demais, ela estava com os cabelos longos, abaixo dos ombros. Cortei um Long Bob bem liso e repartido no meio, inspirado na socialite Kim Kardashian. A personagem dela era uma editora de moda meio malvada. Com as mudanças na história, sugeri um look mais volumoso e com ondas, que agradou ao público em cheio. Ela passou a encabeçar a lista de preferências da CAT, a Central de Atendimento ao Telespectador da Globo. Quando a telenovela terminou, Juliana veio ao salão e aceitou o desafio de reduzir o comprimento. Até hoje, ela diz que sente a tesoura batendo na nuca. Mas ficou lindo e todo mundo amou o seu Trapézio.

O que um profissional deve fazer para ser fera no corte como você?
Aprender a posicionar uma tesoura da maneira certa a 45 ou 90 graus, todo mundo aprende. O que faz a diferença em um corte é usar a técnica ideal para cada pessoa. Por isso, é importante estudar visagismo. Cultura visual e bom gosto são igualmente importantes. Se não tem refinamento, como fazer um trabalho que resulte em algo belo? Impossível!

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Quantos cortes de cabelo você já fez em sua carreira?
Parei de contar depois dos 22 mil, mas, na realidade, se você parar para pensar, qualquer profissional que faça 10, 15 ou 20 cortes por dia, como eu, chegará rapidamente a esse montante. E quanto mais você corta, mais rápido fica. Aliás, o bom profissional gasta maior quantidade de tempo conversando com sua cliente a respeito de suas expectativas e estilo pessoal do que realizando o serviço em si. O tempo que ela passa na cadeira é extremamente valioso para os dois lados.

As mídias sociais são importantes para sua carreira e sua vida?
São, mas o grande segredo é diferenciar o uso. No Instagram, valorizo o lado profissional postando na hora os cabelos das clientes que atendi no dia, vídeos e inspirações de tendências. Tenho ali quase 300 mil seguidores. No Facebook, são mais de 120 mil. Já o Snapchat, prefiro usar para fazer algo mais pessoal e divertido. Crio novelinhas portuguesas, incorporo personagens, brinco bastante. Mas do ponto de vista comercial, a clientela que me visita vem, principalmente, por causa do meu trabalho na televisão e por intermédio de outras pessoas, quando gostam do resultado.

Falando em televisão, como é a sua rotina de gravações nos programas?
É muita loucura, fico de um lado para o outro, já que preciso me desdobrar entre o atendimento no salão, o trabalho no Projac e o programa Por um Fio [reality do canal GNT]. Estou ansioso porque, em breve, vamos começar a gravar a terceira temporada, com duração de três meses. Minha nova parceira no programa é a Paolla Oliveira.

Como faz para manter a boa forma e a saúde em dia?
Faço ginástica funcional na academia do meu prédio. Não gosto de musculação nem do visual bombado. Também sigo as recomendações da minha nutricionista, a Patrícia Davidson. E procuro me manter sempre magro.

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E com Bruna Marquezine e Natália Lage

 

O que você aconselha a quem lidera uma equipe de cabeleireiros?
Que mantenha uma linha direta de diálogo com cada um de seus colaboradores. E em vez de reuniões coletivas, prefiro chamar um a um na minha sala. Nesses momentos, procuro transmitir algumas diretrizes importantes, como a pontualidade e a atenção à cliente.

Você chegou ao auge da profissão. O que falta para se sentir realizado?
Posso dizer que conquistei mais do que imaginava, pois quando comecei, minha pretensão era apenas aprender uma profissão e fazer um bom trabalho. As coisas foram evoluindo naturalmente, sem forçar a barra. Por isso, eu gostaria de transmitir o que aprendi a outros profissionais, é claro. Mas faço poucos workshops porque ainda não desenvolvi um método educacional próprio. Esse é um dos meus grandes planos para o futuro, porém preciso trabalhar bastante para concretizá-lo. E no final de 2017, também pretendo lançar um livro autobiográfico, contando um pouco sobre minha trajetória. Em breve, passarei também a representar uma nova marca. Mas esperem, porque não posso revelar antes, para não perder a surpresa!

 

 

Texto: Dalila Magarian (edição para web: Patricia Santos)
Fotos: divulgação