Wanderley Nunes conta detalhes de sua carreira em entrevista exclusiva

29/01/2017 | Patricia Santos

Wanderley Nunes está no seletíssimo grupo dos melhores cabeleireiros brasileiros. Com 35 anos de carreira, já ganhou muitos prêmios importantes, como o World’s Top Tem Hairdressers, na Alemanha. Por suas tesouras, já passaram Bono Vox, Gisele Bündchen, Claudia Raia, Kaká e Gabriel Medina, entre outras celebridades.

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Wanderley posa na unidade Iguatemi, que, além de bombada, já foi até cenário de filme

O Studio W foi eleito entre os 15 melhores salões do mundo pela revista Harper´s Bazaar americana, e entre os dez espaços que reúnem mais pessoas bonitas em todo o planeta pelo jornal The New York Times. No comando da luxuosa rede com sete unidades em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto – além do WCrystal, em Curitiba –, Wanderley é o capitão de uma vasta equipe formada por cabeleireiros e maquiadores renomados, antenados nas últimas tecnologias e tendências. Educador dentro e fora do salão, contribui para a formação de centenas de profissionais. E agora investe em um programa de educação à distância, para levar a expertise do Studio W para todo o Brasil.

Cabelos&cia: Qual é o segredo? O que fez com que vocêse diferenciasse tanto em técnica, fama e retorno financeiro?
Wanderley Nunes: Investir em pessoas. Alguns donos de salão, movidos pela vaidade, seguram para si os melhores clientes. Existe também o medo de passá-los para outros colegas e, eventualmente, o cabeleireiro sair e levar a clientela. A nossa filosofia é formar o profissional desde o início e descobrir as qualidades dele como indivíduo – levando em conta questões como caráter e ética, além de talento e técnica. O ser humano é a essência do nosso negócio. Faço um paralelo com o casamento: se os noivos se conhecerem bem antes de se casarem, a probabilidade de dar certo é maior do que quando as pessoas se casam sem esse approach.

Você já disse algumas vezes que é possível formar o profissional, mas não a pessoa. Gostaria que você explicasse melhor.
Podemos formar um beauty artist, basta ter métodos para isso, além do talento dele, claro. Mas não temos como transformar seu âmago, sua ética. Mesmo que a gente tente, insista, chega uma hora em que a máscara cai. Outro ponto importante: não podemos esperar das pessoas o que elas não são. Se insistir muito, até pode obter algo, mas demandará muita energia e durará pouco. Invista no que ela realmente é capaz de dar.

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Como saber se a aposta é certa?
Nós temos, no Studio W, um programa para acompanhar a evolução dos profissionais, assim investimos em quem se sobressai. Avaliamos questões técnicas e de relacionamento. Se algo não está bem, procuramos resolver. Ensinamos também como vender produto, como ser marqueteiro no bom sentido, como se relacionar bem com a equipe, como tratar os clientes… Para isso, inclusive, montamos um centro de treinamento interno, a Academia Studio W, responsável por contínua formação e atualização. Rosângela Barchetta, sócia e diretora executiva do Studio W, e eu acompanhamos todo esse processo de perto e medimos os resultados. Damos a chance de o beauty artist crescer dentro da nossa rede – ele não precisa sair daqui para se sobressair.

Como é o Wanderley educador?
Já formamos centenas de profissionais. Vários atingiram o topo, como Ricardo Rodrigues e Jackson  Junes, e continuam aqui. É sempre complicado citar nomes. Alguns foram para outros salões, outros abriram o próprio negócio, como Marcos Proença, um dos melhores cabeleireiros do Brasil. Mas não sou eu apenas que formo, e sim vários colaboradores internos, já que a educação faz parte da nossa cultura. Somos um time que descobre e lapida novos talentos. Fazendo um paralelo com o time do Santos: temos vários “Neymares” aqui dentro. E há anos viajo o País inteiro para dar workshops. Acabei de voltar de Palmas, embarco em breve para Macapá… A minha didática é bem aceita pelos alunos – alguns reportam que conseguiram aumentar o faturamento em 30%, 40% depois das minhas aulas. Existe uma grande demanda por educação no Brasil e, para atendê-la, estou lançando um curso à distância.

Como a novidade funcionará?
Vamos ensinar técnicas de corte, cor, estilo, penteado, maquiagem e manicure – tudo o que fizer parte do universo do salão de beleza. Teremos cursos para iniciantes, intermediários e avançados, divididos em módulos. Estamos buscando parceiros como empresas, governo e Sebrae. O método será interativo – os participantes mandam material que será avaliado por nós. Mas os julgamentos finais serão sempre presenciais – neles, mediremos os resultados alcançados por cada aluno. Técnicas de gestão também estarão na grade – mostrar, por exemplo, como o empreendedor pode ter um bom faturamento em um salão pequeno. O produto deve estar disponível nos próximos meses – a ideia é expandir a expertise do Studio W para o País inteiro. É um projeto bastante ambicioso, que tem como base a nossa credibilidade de 25 anos como um dos principais líderes de mercado. 

Você tem o dom da beleza?
Acho que Deus me deu a vocação da arte. E ela, claro, tem tudo a ver com o meu trabalho como cabeleireiro, por questões estéticas, técnicas, de olhar, a busca da perfeição… Eu me dedico também à fotografia e à gastronomia. Este ano, fui convidado para expor minhas fotos no Carrousel du Louvre, em Paris, e em Pádua, na Itália. E um dos meus maiores prazeres é receber os amigos em casa e cozinhar para eles. Ângulo, luz, movimento são pontos em comum entre penteado e foto. Já a relação com a gastronomia é orgânica, na medida em que você é o que come – se sua dieta é saudável, o cabelo tem grande chance de ser também.

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Você foi praticamente criado em uma barbearia. Isso facilitou sua escolha profissional?
Meu pai era barbeiro em Maringá (PR) e eu ajudava-o desde criança, engraxando sapatos. Esquece glamour, porque não nasci no meio da beleza. Aliás, foi muito difícil convencer todos que queria cortar cabelo de mulher. Errei bastante, fui mandado embora de institutos – em alguns, disseram para procurar outra carreira. Também sofri injustiças. Levantei, porém, mais forte depois de cada tombo. Só estudei na Europa após ter feito clientela – antes, não tinha recursos financeiros. Trabalhei muito, insisti, fui persistente… Abri meu primeiro salão em 1988 – a partir daí, tudo fluiu melhor. Em 1999, com a Rosângela Barchetta, fundei o Studio W Higienópolis. Dois anos mais tarde, veio o Studio W Iguatemi. Depois, cinco outras unidades, todas em shoppings (três na capital e duas no interior), além do WCrystal, em Curitiba. Acredito que o sucesso veio com o dom, a arte e a humildade – além de muito trabalho.

Em que medida a modéstia é importante?
Sem ela, o caminho é mais difícil, espinhoso… Com simplicidade, você convence as pessoas de que merece tudo o que elas estão ensinando a você. E faz com que seja respeitado pelas que são bacanas – e o contrário também. Em uma palavra: ela dá credibilidade.

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Rosangela Barchetta

Como conciliar arte e administração?
Nem sempre o profissional tem ambos os talentos. Se a pessoa perceber que, apesar da técnica apurada, não é do tipo gerencial, precisa procurar um apoio nesse sentido. No caso do Studio W, por exemplo, a Rosângela Barchetta é administradora e eu sou arte. Quando o negócio começa a dar dor de cabeça, afeta a parte artística também. Como trabalhar bem sabendo que está perdendo dinheiro, que está pagando imposto errado, que seu contador não é bom?

Você sempre reforça a importância de entender, de ouvir a cliente. Como fazer isso?
Temos de ser um facilitador e não um complicador. O profissional precisa saber interpretar o que é melhor para ela. Ele precisa imaginá-la, quando não estiver ao seu lado, triste e aborrecida com o visual. Foque na vida prática: o tempo que a cliente dispõe para se cuidar, a parte financeira, se tem jeito para arrumar o cabelo ou não, a personalidade. Mulheres muito fortes podem não ouvir o profissional – e isso é um problema. Existem pessoas pobres com fios lindos e endinheiradas com cabeleira malcuidada.

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Com o cantor irlandês Bono, vocalista do U2

O que é um cabelo de milionária?
É aquele bonito sem precisar fazer muita coisa. Os que não aparentam riqueza são aqueles estragados por procedimentos malfeitos. É aquele que a mulher precisou fazer de tudo para estragar – e conseguiu. Para não errar, a dica é apostar no clássico, seja para cortar e colorir o cabelo, seja na hora de comprar uma roupa, uma joia, um carro…

Como você consegue ter essa compreensão da cliente?
Observando a maneira como ela se veste, como ela fala, seus gestos. Você será recompensado: as exigentes são também as mais fiéis. As volúveis cortam em vários lugares – isso faz parte do negócio. Já vi muita mulher rindo quando, na verdade, queria chorar por causa da cabeleira. O bom cabeleireiro deve saber falar não. Se você erra, é 40 vezes criticado. Se acerta, é quatro vezes elogiado. Essa é a matemática da nossa profissão.

Como conquistar clientes famosos?
Quando penso em atrizes, celebridades e empresários de sucesso, vejo, antes de tudo, um formador de opinião. É ele quem divulgará o seu trabalho e trará mais pessoas para o seu negócio. Você atua em um bairro? Escolha a mulher que tem mais atitude para ser sua cliente, a que tem bom gosto, a bonita. A rica virá pela referência dela. Transforme-se no cabeleireiro das pessoas importantes na sua comunidade, na sua cidade. Já é um bom começo.

Wanderley Nunes e Claudia Raia

Com a atriz Claudia Raia

Mas como foi no seu caso? Para propagar sua marca, você estabeleceu vínculos com celebridades. Como se deu isso? Via carisma, marketing, assessoria de imprensa?
O que vale é o bom trabalho e o boca a boca. Se você deixa uma celebridade ainda mais bonita, a amiga dela vai querer cortar com você e assim por diante. E o processo pode ir além, quando ela vira sua amiga. Tenho várias, como a Claudia Raia e a Guilhermina Guinle.

Como você se reinventa?
Aprendendo com os outros. Por isso é importante ser educador: você precisa se aperfeiçoar para ensinar. É uma via de duas mãos, ensina e aprende ao mesmo tempo. Mesmo o profissional que está começando pode ter algo para aconselhar – uma maneira de ver a vida.

O que fez para se adaptar às redes sociais?
Eu contratei profissionais para cuidar disso, fotografar, escrever, publicar… Não dá tempo para fazer tudo e também não acho legal o hairstylist passar o dia inteiro postando, pois dá a impressão de que ele está sem fazer nada.

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Com o campeão mundial de surf, Gabriel Medina

Dá para ter um diferencial sem precisar viajar para fora ou gastar muito?
Claro, principalmente no atendimento. Compre um biscoitinho, bata um mate gelado com limão e ofereça aos clientes. Deixe o salão sempre limpo, sem um fio no chão. Ensine a pessoa a lavar e secar o cabelo em casa. Mantenha um ambiente positivo, com todo mundo sorrindo, mostrando felicidade em trabalhar lá, sem inveja, sem futrica. Sabe do que a mulher mais gosta? De um lugar saudável.

Como administrar egos?
Ninguém consegue. Só colocando dinheiro no bolso dessas pessoas – aí até dá, mas por pouco tempo. Com amizade, carinho, não rola. Excesso de personalidade prejudica o profissional e o salão. Quando chega aqui uma cliente com muita rebeldia, logo sei que não dará certo. Não importa o quanto ela rende para o seu estabelecimento. O que conta é a maneira como ela respeita a casa, a cultura do meu negócio. O salão precisa se blindar – a hierarquia não pode ser desrespeitada para agradar a uma pessoa ou outra. Por menor que seja, tem de ser uma empresa, e não uma portinha aberta. Se você tem uma cadeira, já é um empreendimento e deve ser tratado como tal.

Qual a grande dificuldade do setor?
Nosso setor é informal ao extremo – se essa situação já é ruim em São Paulo, em locais como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, com menos fiscalização, é ainda pior. O dono de um salão consegue chamar um profissional para ganhar 80%, 100% – claro que isso vai atraí-lo. Mas não é sustentável para o negócio, a não ser que a pessoa trabalhe na informalidade, o que acaba acontecendo. Em pleno século 21, ainda existem cabeleireiros, médicos, dentistas que perguntam aos clientes se querem pagar com nota ou sem! Dessa forma, a concorrência é muito desleal. Enquanto nós não nos conscientizarmos da importância da formalidade – e as leis funcionarem da mesma forma para todos –, o mercado de beleza não alcançará seu potencial total de crescimento.

 

Texto: Olga Penteado (edição de web: Patricia Santos)
Fotos: Gustavo Morita e divulgação