Barbeiro cria protocolo de prevenção do suicídio

10/09/2019 | Monique Abrantes

O barbeiro britânico Tom Chapman criou o grupo The Lions Barber Collective, que tem como objetivo auxiliar homens com indícios de problemas mentais

Todo atendimento de beleza, seja ele entre homens ou mulheres, gera uma aproximação entre cliente e profissional, fazendo com que o elo de confiança resulte em confissões e desabafos durante o serviço.

De olho nessa característica do trabalho de barbeiro, o britânico Tom Chapman, diretor global de barbearia e embaixador da linha masculina da Keune Haircosmetics, criou o The Lions Barber Collective, grupo de profissionais de barbearia treinados para reconhecer possíveis sinais de doenças mentais e de prevenção do suicídio.

Porém, a ideia de criar o The Lions Barber Collective, que já existe há dois anos,  veio em 2015, quando Tom perdeu um grande amigo, que se suicidou. “Eu não imaginava que ele faria algo assim. Isso me fez pensar que podemos identificar os sinais e fazer algo voltado à prevenção do suicídio”, conta Chapman.

Confira a entrevista exclusiva para a Cabelos&cia.

Profissionais de beleza têm uma proximidade com seus clientes que os fazem se sentir à vontade para conversar assuntos pessoais durante o atendimento. Porém, os homens ainda são mais reservados nesse quesito. Como quebrar essa barreira sem ser invasivo?

O atendimento é um momento em que o barbeiro e o cliente ficam muito próximos. Os homens, por mais que tenham amigos, não deixam outros homens tocarem seus rostos, seus pescoços sem um motivo, ao contrário do barbeiro. Essa já é uma quebra de barreira muito grande.

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De acordo com o que você já presenciou, qual é a maior dificuldade que uma pessoa com tendências suicidas têm para falar sobre o assunto e pedir auxílio?

Principalmente falando sobre os homens, eles ainda enfrentam o preconceito de que falar sobre seus problemas e o que sentem sejam uma fraqueza. As pessoas que procuram ajuda ainda sentem medo de serem julgadas, sendo que, na verdade, elas muitas vezes só querem ser ouvidas.

Um dos principais sinais de quem está passando por algum problema: aumento ou perda muito grande de peso, muito ou pouco sono, etc.

Tom Chapman

Como é o seu protocolo de atendimento para identificar clientes que estejam passando por uma situação complicada?

Como nós barbeiros temos uma agenda mais definida com os clientes, eles precisam voltar de tempo em tempo para cuidar da barba e do cabelo. Dessa forma, é possível notar extremos. Um dos principais sinais de quem está passando por algum problema: aumento ou perda muito grande de peso, muito ou pouco sono, etc. Ao contrário de quem convive diariamente, que não percebe essas mudanças de forma tão notória.

No Brasil, vivemos uma expansão muito grande das barbearias, algo que demonstra o aumento na procura por bem-estar pelo público masculino. Você acredita que esse é um sinal de que os homens estão quebrando o estigma de que não precisam de cuidado e que, sim, estão se tornando mais sensíveis a essa necessidade?

Acho que foi um movimento contrário. Os homens não tinham o costume de frequentar espaços de beleza porque não tinham um lugar específico para isso. Aqui no Brasil, os homens, por exemplo, procuravam um corte fade em um salão e não conseguiam o resultado desejado. Daí viram que conseguiriam indo às barbearias. E as barbearias é um espaço bem masculino ainda, quase uma irmandade, em que todos que estão ali estão por um motivo: se cuidar e ser cuidado.

Como barbeiro, você viaja por todo o mundo e percebe as particularidades da área ao redor do planeta. Quais são as principais diferenças que você notou aqui no Brasil? E as semelhanças com outros países?

No Brasil, os homens aderiram muito forte ao fade, justamente pela cor escura do cabelo propiciar esse degradê mais marcado. Outro ponto que percebi é que o barbeiro brasileiro é muito artístico. Fui a Campo Grande (MT) dar um curso e fiquei impressionado com o trabalho feito com sprays coloridos. Também acho que o brasileiro vai muito atrás de educação, sempre que aprender mais, se especializar. Não noto muito isso na Inglaterra, por exemplo.

*O CVV – Centro de Valorização da Vida – realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, no número 188, email e chat 24 horas todos os dias pelo site: https://www.cvv.org.br/